Lúcia dos Anjos
Publicado por Fernando Peixeiro 9 Junho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Falaste-me dos que querem morrer e hoje vou falar-te dos que não querem. Lúcia Anjos não queria mas morreu ontem, quando dava a sua corridinha pela marginal da Cidade da Praia. Lúcia Anjos levou em cheio com uma chapa de metal que voou de um camião que ia a passar. Lúcia Anjos morreu instantaneamente. Não queria, não merecia, não podia.
Das pessoas que eu obrigatoriamente tinha de conhecer aqui na Cidade da Praia foi ela das últimas. Um conhecimento tardio mas que mesmo assim deu para gostar dela. Simpática, muito educada, prestável, sempre disponível, compreensiva.
Jornalista de profissão, Lúcia Anjos, Lucy, era há uma década assessora do MpD, maior partido da oposição. Todos os dias recebi os seus mails. Às vezes respondia-lhe a dizer que de certos assuntos não ia fazer a cobertura e ela entendia perfeitamente. Outras pedia-lhe mais rapidez no envio da informação e ela respondia a seguir, a dizer que ia fazer o seu melhor.
Acredito que sempre o fez. O MpD perdeu ontem uma grande assessora e Cabo Verde uma grande mulher. E da forma mais parva que se pode imaginar, digna de figurar nos Darwin Awards.
Ontem, por volta das seis da tarde, como de costume e com uma amiga também do MpD, Lúcia Anjos corria pela Avenida Marginal da Praia, como de resto fazem centenas de pessoas todas as tardes.
Depois, pronto, não tinha de ser assim mas foi. Um camião passa a alta velocidade e dele solta-se uma chapa de aço que vai direitinha à Lucy. Quando chegou ao hospital, a escassos 500 metros, já estava morta.
Vejo isto e fico a pensar. Mas porque raio é que a porcaria das chapas não iam presas? Não tenho explicação. Vive-se a total anarquia neste país, onde ninguém respeita a lei quando se trata de segurança rodoviária. Vejo constantemente camiões carregados das mais diversas coisas, sem qualquer protecção, vejo camiões abarrotando, de pedras ou de lixo, de areia ou de caixotes, sem nada que os segure a não ser a esperança de que tudo há de correr bem, ou a inconsciência de que nada há de correr mal. Isto para já não falar das altas velocidades, não controladas, ou dos carros que não têm piscas (têm mas só servem para enfeitar) ou, pior ainda, luz de travagem. São atropelos diários à lei e à vida das pessoas. Como ontem.
Lúcia Anjos começou no jornalismo nos anos 80, trabalhou na Televisão de Cabo Verde e nos últimos 10 foi assessora do grupo parlamentar do MpD. À hora a que te estou a escrever isto Lúcia está a ser enterrada no cemitério da Praia.
Lúcia era casada e tinha dois filhos. A culpa, essa, há-de morrer solteira.
Um abraço triste
Fernando Peixeiro



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