Caro amigo
Temos, nesta nossa troca de correspondência, “cascado” em Portugal e nos seus governos. Na generalidade das vezes concordo contigo, como quando ontem me falavas do encerramento das maternidades. Mas hoje vou dizer bem. Neste dia da criança não posso deixar de pensar no ar de felicidade de um adulto. Uma adulta, melhor dizendo. Lourença de seu nome. E as lágrimas que quase lhe escapavam em frente às câmaras de televisão por causa de Portugal.
Lourença Tavares está à frente de uma organização de apoio a meninos de rua aqui em Cabo Verde. É certo que o problema não é assim tão grave como noutros países de África: as crianças que dormem debaixo das estrelas serão pouco mais de 500. Mas que diabo, terás de concordar comigo que é sempre mau quando dorme assim nem que seja uma criança, mesmo num país de noites cálidas. Não basta dormir! E quem lhe dá o beijo de boas noites? Quem lhe conta uma história? Quem lhe aconchega o lençol? Quem espreita pela porta entreaberta para ver se ela dorme sossegada? Quem a acarinha quando tem pesadelos? A afaga quando está doente? Quem a ama?
Lourença Tavares ama-as. Quer ajudá-las, dizer-lhes que podem ser felizes, realizadas, crescer como seres humanos. Dizer-lhes que o mundo é mais do que a rejeição, os castigos, a fome e os abusos sexuais.
Mas não basta chegar-lhes e falar de amor. É preciso mais do que isso para as crianças que dormem em Sucupira ou no Parque 5 de Julho. É preciso mais para elas e para as famílias, quando existem. E na maior parte dos casos existem.
Foi por isso que hoje Lourença Tavares quase chorou à frente dos jornalistas, quando recebeu do governo de Portugal 58 mil euros para uma auto-caravana, que vai chegar equipada como se fosse uma casa, com livros e jogos, sessões de animação e sala de apoio psicológico.
É nesse carro que a equipa que dirige vai chegar a todas os meninos de rua de Santiago. Um carro especializado em tirar os meninos da rua e fazer deles homens e mulheres de pleno direito, de preferência junto de quem lhes aconchegue os lençóis.
Lourença, que hoje, dia da criança, concretizou um sonho antigo, promete trabalhar de dia e de noite.
Estava tão feliz a Lourença, mas tão feliz António! Olhando para aquela mulher assim senti-me orgulhoso do meu país e a pensar que nem todos os meus descontos são afinal mal usados.
Não sei quantos meninos os 58 mil euros podem ajudar a sair das ruas de Cabo Verde. Pode ser só um mas continuo orgulhoso do meu país. E feliz! Pela Lourença e pelos seus meninos.
Um feliz abraço
Fernando Peixeiro

