Ka entende Crioulo

António,

Não me espanta essa facilidade de um norte-americano em aprender Português, ainda que com aulas por cima do muro. Espanta-me mais os imigrantes de leste que pululam por aí, que em poucos meses se fazem entender e entendem, ainda que por certo não tenham uma professora paredes-meias.
E espanta-me também a forma como aqui tratam o Português, quando a aprendizagem da língua, julgo eu, seria uma mais valia.
Quando te despedias, na tua carta, a desejar-me boas aulas de Crioulo, devo dizer-te que não estou a pensar aprender a língua nativa de Cabo Verde, que no fundo não é mais do que um Português arcaico e simplificado. Nem que fique aqui cinco anos, como o Omar.
O Crioulo é falado por 450 mil pessoas, o Português é a língua de mais de 200 milhões. Depois, Cabo Verde é um país de emigrantes. E tendo em conta que Portugal é, ainda, para muitos, um destino apetecível, será muito mais fácil a adaptação para um cabo-verdiano que desagúe em Lisboa se falar correctamente a língua que, afinal, é também a dele.
O artigo 9 da Constituição de Cabo Verde diz no ponto 1 que a língua oficial é o Português. E no ponto 2 acrescenta que o Estado promove as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa. Finalmente, no ponto 3, afirma-se que todos os cidadãos nacionais têm o dever de conhecer as línguas oficiais e o direito de usá-las.
Pronto. Mas mesmo estando escrito é curiosa, aqui, a utilização do Português. A língua é falada, por exemplo, nas escolas, nos organismos oficiais, na imprensa escrita, na televisão. Não tens em Cabo Verde, por exemplo, um jornal em Crioulo, como não tens rádios em Crioulo. E quando sintonizas o serviço noticioso da televisão de Cabo Verde, às 08 da noite, entendes tudo. Mas é visível, nas ruas, nas lojas, nos mercados, entre o povo, a preferência pelo Crioulo, que, alguns, usam com o mesmo à vontade que o Português.
Se estou, por exemplo, numa conferência de imprensa com jornalistas cabo-verdianos, e nas meias horas de espera (aqui nada acontece à hora marcada) vamos falando em Português e, eles, também em Crioulo, como se bastasse subir ou descer um botão.
Se a conversa me inclui falamos todos em Português, mas rapidamente estão todos entre eles a falar em Crioulo logo a seguir, para voltarem alegremente ao Português com a mesma facilidade com que o largaram.
E isto é aqui, na capital, e não é para todos. Há alguns jornalistas que, comigo, são mais calados, mais fechados. Antipáticos? Não. Alguma aversão a brancos? Não. A estrangeiros? Não. Apenas se sentem menos à-vontade com a língua que eu falo.
Mas o caso torna-se mais complicado quando vais para o interior. Há pessoas, incluindo muito jovens, que mal falam Português. E nalgumas é visível o esforço que fazem para dialogarem comigo, como uma chefe de família da localidade de Órgãos, que tentou e conseguiu convidar-me para o 66º aniversário, este mês, depois de eu já lhe ter comido o almoço um belo domingo destes.
Eu bem que tento, por aqui, fazer a apologia da nossa língua, dizer que é muito mais importante falar bem Português do que falar bem Crioulo. Mas que posso eu se o próprio ministro da Cultura é um acérrimo defensor do Crioulo? Que posso eu se os professores ensinam nas escolas um Português cheio de erros? Que posso eu se continua a haver por aqui uma certa cultura anti-Portugal?
Por mim, que o ministro da Cultura me perdoe, Cabo Verde devia esquecer essa história do Crioulo. Se aqui nas ilhas têm a sorte de ter uma língua que é falada quando se viram para Sul, no Brasil, para norte, em Portugal, para leste, na Guiné-Bissau… Para já não falar da facilidade que quem fala Português tem em entender o Espanhol…
Por isso, em bom Português, que 200 milhões entenderiam, um abraço e até às tuas novas de Portugal.

 Fernando Peixeiro


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