Caro amigo

Ainda que na Cidade da Praia, ainda que longe já das eleições guineenses, queria falar-te hoje de Valéria Amato e do seu projecto em Cumura, nos arredores de Bissau. Valéria Amato é freira e tem uma voz doce. Uma voz que, quase acredito, ajuda a curar as pessoas com sida, lepra e tuberculose que a rodeiam.
Achei por bem falar-te dela a propósito do dia mundial da luta contra a sida, que se assinalou há poucos dias. Valéria Amato dirige o hospital de Cumura, a escassos 10 quilómetros de Bissau, criado em 1958 para assistir leprosos mas onde hoje a maioria das camas estão ocupadas com seropositivos, a “verdadeira lepra”, sem controlo no país, como me havia de dizer o director clínico, o médico português Victor Henriques.
“Muitos dos que nos chegam aqui infectados nem sabem o que é a Sida, outros abandonam o tratamento a meio. É difícil explicar a uma pessoa analfabeta o que é um vírus, o que é a Sida”, contava-me Victor Henriques na tarde que visitei Cumura, com o Tiago, meu amigo e fotógrafo, e o Júlio, motorista, que se fechou dentro do carro porque aquele local, justificou, causa-lhe arrepios.
Teria as suas razões, o Júlio. Cumura é o único hospital da Guiné que recebe pessoas com sida, com lepra e com tuberculose. As coisas estão ligadas. Agora começaram a aparecer casos de lepra associados à sida, porque a tuberculose, essa, já anda de mãos dadas com a sida há muito.
Mas… e as crianças Senhor? “Temos uma incidência muito grande de gestantes e crianças com sida. Temos muitos e continuamos a receber mais”, disse-me Valéria Amato, ar franzino, pequenina, uma voz que acalma e um sorriso terno.
Em menos de 10 minutos fez-me um retrato assustador da Guiné. Para que vejas, o hospital tem 60 camas, metade ocupadas com infectados com HIV. A tuberculose está também a aumentar, relacionada com sida mas também com má alimentação, pobreza e promiscuidade.
“Há muitos doentes com o HIV positivo contaminando em casa, sem diagnóstico, sem tratamento, sem alimentação… é preocupante”. Valéria tem os números de cabeça: em 2005 Cumura recebeu 250 casos de Sida, em 2006 já foram de 400, seguindo-se mais de 700 no ano passado, e “este ano um número bem maior”.
Actualmente, o hospital segue 250 crianças com menos de 17 meses, presumivelmente infectadas, sendo que entre oito e nove por cento das grávidas que chegam a Cumura são seropositivas, “números muito grandes”, num país com 1,5 milhões de habitantes. Números que a “Irmã” debita assim, aparentemente sem emoção, porque Valéria Amato, italiana de nascimento, está ali há já 20 anos, quando Cumura era ainda um hospital apenas de leprosos.
Num país destruído por sucessivos conflitos, um país hoje basicamente conotado com o tráfico de droga, foi bom ver Cumura, indiferente aos espasmos de Bissau. E foi bom ter conhecido Valéria Amato. Júlio, se calhar devia ter saído do carro.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Júlio devia ter saído do carro”

  1. 1 Raul "Houss" Ribeiro

    Admirado Fernado, acabo de fazer uma extensa visita ao teu excelente blog de infos, e de relatos vividos; foi a minha percepção!
    E quero te dizer que fico arrepiado com as noticias sobe o SIDA, este foi um testemunho teu num espaço onde são identificadas as pessoas infectadas na Guiné Bissau, imagina tu este nosso pequenino e estimado país de musica e morabeza, quantos não hão des estar infectados por esse terrivel HIV, mas nem por isso as pessoas falam disso apenas fazem uma campanhas sem expressão nenhuma, e fica-se sem saber a quantas andamos. Sofoca-me saber que existe dinheiro e programas para esse mal mas essa M…. não sai como deve ser. Bom como te disse arrepia-me falar disso e por isso não me vou alongar mas podemos nos encontrar e falar sobre isso quem sabe não dá uma boa matéria jprnalistica, ahahaha. Abraços, cuida-te “miúdo” feliz Natal.
    Raul


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