Identidade cabo-verdiana

Caro António,

compreendo a tua revolta e tristeza pela falta de memória que em Portugal parece haver. Mas também, visto à distância, me parece que não será caso para tanto. Que diabo! Não se tratou de um referendo, não foram os portugueses chamados às urnas para escolherem o eleito, não foi mesmo uma sondagem feita por uma empresa conceituada. E não se pode culpar dez milhões só porque um punhado de gente, por azar, tem telefone.

Visto das ilhas o caso pouco impacto teve, uma referência, anódina, num jornal, e pouco mais. E visto das ilhas, eu, acho bem. A história, o carácter, a identidade de um povo não se mede por uma votação telefónica qualquer.
Em Cabo Verde, curioso, parece-me haver por vezes essa procura. Procura de uma história própria, de uma identidade. Porque a identidade cabo-verdiana está constantemente na boca dos que governam, é já quase um “lugar comum” nas páginas dos jornais, nos discursos. E não se fala tanto de uma coisa se ela for um dado adquirido, digo eu que estou aqui há dois meses e que nunca vi em Portugal uma discussão sobre a identidade portuguesa.
Para mim, a coisa é limpa. Se pudesse e se isso aliviasse diria a todos por aqui que estivessem descansados, que me parece haver essa história, afinal a nossa, esse carácter e essa identidade.
Cabo Verde é a comunidade dos Rabelados nas montanhas, os únicos que vivem em casas de palha e se recusam a por nome aos seus filhos, são os pescadores da Praia Baixo que se aventuram até à ilha do Maio nos barcos em que eu nem atravessava o Tejo, são uma dúzia de trabalhadores que andam há dois meses para construir um passeio.
Mas é também mornas, batuques e coladeiras. São os gritos de “golo” em cada casa quando a selecção de Portugal marca. O vento de leste que sopra constantemente e seca tudo, levantando dunas de areia nas ruas da capital. É comer cachupa a meio da noite, ir dançar à discoteca e ir dar um mergulho ao mar antes de dormir.
É subir à aldeia de Rui Vaz para sentir frio. É comer peixe acabado de regatear à saída do barco, andar a 20 à hora por estradas esburacadas, pagar um euro por um café, falar português, responderem que sim e depois perceberes que não entenderam uma palavra.
Um país que tem uma localidade chamada Senhor do Mundo, ou Ribeirão Chiqueiro, ou Casa Branca, ou Milho Branco, é um país que tem identidade.
E aqui o Tarrafal é uma praia. Já não é um campo de concentração. Mesmo quando os políticos se acusam uns aos outros de não terem ultrapassado o complexo de colonizados.
E mais diria. Mas a falta de electricidade impede-me de me alongar. Desde que aqui estou ela já falhou tantas vezes que começo a desconfiar de que faz também parte da identidade de Cabo Verde.

Um abraço

Fernando Peixeiro  


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