Hamadú, uma vida no olhar
2 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 24 Novembro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Hamadú Candé é das pessoas mais sofridas que conheci até hoje. Não o vi chorar, torcer-se de dor, não o vi gritar ou gemer. Falei com ele à sombra de uma árvore, sentados em cadeiras de plástico, mas nem foi tanto a sua voz que me impressionou. Os olhos de Hamadú espelham o que lhe vai lá dentro, o que sofreu alguém que andou quase ano e meio a rondar a Europa e acabou num restaurante, na estrada do aeroporto de Bissau.
Não foi fácil encontrá-lo. Quando saí da Cidade da Praia já pensava que queria aproveitar as minhas duas semanas na Guiné-Bissau para tentar perceber melhor a questão da emigração ilegal, o que leva as pessoas a arriscarem a vida para chegar à Europa, sem documentos, sem trabalho e sem família. É fácil, de resto, entender o porquê quando andas no interior da Guiné, nas aldeias pobres, sem futuro mas também sem presente.
Foi numa delas que Hamadú nasceu. Falaram-me de um antigo segurança, que andou na vida da emigração e lá dei com ele, uma noite, à volta de um grelhador. Pedi que me contasse a sua história no outro dia, de manhã, e depois de vários atrasos, meus, lá nos encontramos, à porta de casa, no pobre Bairro Militar de Bissau, um cajueiro a fazer-nos sombra, alguns ouvintes silenciosos.
Nasceu no interior, na região de Suna, Bafatá, pais agricultores, infância de gente sem dinheiro, dois anos de escola apenas. Aos 14 anos morreram-lhe os pais, aguçou-se a miséria e logo que pode foi para o vizinho Senegal trabalhar, que na Guiné não há trabalho, porque nada se constrói naquele país.
Cinco anos em Dacar, dinheiro posto de lado e a ideia teimosa da Europa, de onde lhe chegavam, às vezes, histórias de sucesso. Tão teimosa que um dia meteu mil dólares nas mãos de um homem que lhe prometeu a viagem. O homem levou-o a ele e a outros numa carrinha, directo ao porto de Dacar, mandou-os descer e apontou um barco muito ao longe. “É aquele barco que os leva para a Europa”. E foi-se embora. Com o dinheiro.
Hamadú volta ao trabalho em Dacar, mais dois anos. Não abandonou a Europa e um dia, com outros como ele, 36 ao todo, da Nigéria, dos Camarões, meteu-se numa carrinha e lá foi África acima. Passou o Mali, o Burkina Faso, o Níger e a Argélia. Queriam chegar à Líbia de lá atravessar o Mediterrâneo para Itália. Mas os líbios não os deixaram. Para tirarem ideias da cabeça deixaram-nos no deserto, 48 horas perdidos, três cadáveres pelo caminho.
Hamadú não desistiu. Voltou à Argélia, atravessou a fronteira com Marrocos, foi assaltado, voltou atrás, seguiu adiante. Conta-me que passou fome, que andava de noite para não ser visto, que dormia onde calhava e comia o que lhe davam. Tudo para chegar a Nador e Melilla e de lá arranjar maneira de atravessar para Espanha, Almeria, Málaga, tanto fazia.
E chegou de facto, mas foi preso e colocado na fronteira. Subiu de novo, desta vez até Ceuta. Também não teve sorte. Sem dinheiro, o irmão, na Guiné, vendeu os dois bois da família e ele continuou a apostar. Cinco vezes. Cinco vezes chegou a Espanha, cinco vezes foi preso e mandado para Marrocos, até que da última o meteram num avião e o deixaram em Dacar. Tinham-se passado 16 meses.
Hamadú baixou os braços. “Estava cansado”, disse-me ele sentado na cadeira de plástico, olhar profundamente triste, voz magoada. Foi por isso, por esse cansaço todo, que quando um “patrão” lhe propôs nova tentativa de piroga, a partir da Mauritânia, ele se recusou. Convenceu o irmão e no início de Maio de há dois anos despediram-se na Guiné. O irmão de Hamadú seguiu para a Mauritânia e embarcou numa piroga, que naufragou no dia 14. Das 33 pessoas que partiram sobreviveram 15. O irmão estava entre as outras 18.
Os olhos de Hamadú não transpiram culpa nem lágrimas. É o destino que o fez nascer num país sem trabalho e sem condições, que lhe matou o irmão onde outros conseguiram. “Não temos nada, aqui não há nada, é por isso que emigramos”, justifica-me, como se eu não tivesse já entendido.
“Chegas à Argélia e pensas que estás na Europa, chegas a Marrocos e pensas que estás nos Estados Unidos. Porque a Guiné é subdesenvolvida. E não acredito que vá melhorar”, diz-me ele a rematar, sem conseguir negar que ainda tem ali a Europa consigo, embora sabendo que ela não está com ele. Talvez Angola, mas clandestino nunca mais. “O que eu vi, o que eu senti na pele, o que eu sofri, os sacrifícios por que passei…”.
A esta hora que te escrevo Hamadú lá deve estar, agarrado às brasas, a ganhar 61 euros por mês, na estrada que liga Bissau ao aeroporto. Não sei o que lhe vai na cabeça mas suspeito que a Europa ainda andará por ali. Se um dia souber que se meteu outra vez ao caminho compreendo.
E tu, se um dia te cruzares aí com um guineense e se nos seus olhos vires esta vida assim tão triste é porque Hamadú Candé conseguiu. Faz-me um favor nesse dia. Diz-lhe que eu lhe desejo muita sorte.
Um abraço
Fernando Peixeiro


essa tua cronica é muito bonita e ja esta na hora que quem de direito se convença que só com os paises a se desenvolverem,,quer dizer, a respeitar os direitos basicos é que vale a pena as pessoas escolherem o sitio ode querem viver.quem sabe , um dia,,um filho ou um descendente desse guineense vem para a europa, ou pra outro sitio qualquer, só porque acha que lhe apetece, que quer aprender mais , encontrando as mesmas condições que tem no seu país.
isto n é sonho nem quimera, o mundo anda muito rápido e não fazemos ideia do que pode ser o dia de amanha
Quantos Hamadús perdidos por aí encontrai nas lágrimas
deste “teu” Hamadú…