Caro amigo

Deixa-me testar os teus conhecimentos! Sabes onde fica a Rua do Banco Nacional Ultramarino? E a Andrade Corvo, antigo ministro do ultramar? E a Serpa Pinto, antigo administrador colonial? E já agora a Rua Pedro Álvares Cabral? Deverás conhece-las todas aí em Lisboa. Mas também as tenho aqui, ao lado umas das outras, em pleno centro da capital de Cabo Verde.
Como não sou apreciador de bolos venho, pois, hoje dar-te conta deste caso curioso e que revela, julgo eu, a maturidade de um povo. Ainda que por vezes os portugueses sejam apelidados da forma como já aqui te escrevi, Cabo Verde deverá ser das ex-colónias de Portugal aquela que melhor sabe lidar com o seu passado.
Só assim se entende que a principal artéria da Cidade da Praia se chame Avenida Cidade de Lisboa e que no centro da capital se preste homenagem a antigos ministros, administradores e exploradores do passado colonial português.
No centro da Praia, apesar deste se chamar um nome francês, Plateau, qualquer português se sente em casa. A arquitectura, o largo com o seu coreto, os bancos de jardim ou a calçada portuguesa transportam-nos, no momento, para qualquer vila ou cidade de Portugal.
E depois, como se isso não bastasse, olhas à tua volta e que vês?
Um dos largos mais agradáveis, a Praça do Cinema (uma réplica do antigo Éden de Lisboa), tem um busto no centro que homenageia o médico, português, António Lereno.
Desces um pouco em direcção ao mar e desembocas noutra praça, a principal praça do país, diria eu. E como se chama? Praça Alexandre de Albuquerque, governador de Cabo Verde entre 1869 e 1876. É um local rodeado de casas baixas azuis, amarelas e vermelhas, tons ocre, com um jardim cuidado e um busto ao meio, rodeado de flores, onde podes ler numa placa: “ao grande governador, o vice-almirante Caetano Alexandre d´Almeida Albuquerque, a cidade da Praia reconhecida” e depois uma data – 1926.
Como diria Manuel da Fonseca, “a praça era o centro do mundo”. Ali, ontem como hoje, desembocam e partem ruas com nomes que tudo dizem a Portugal. E a Cabo Verde, arrisco-me a dizer, por ter com o passado uma relação desempoeirada e saudável.
Nomes como Manuel de Arriaga, Miguel Bombarda ou Pinheiro Chagas. Nomes como os administradores da antiga colónia Pereira Sampaio ou Saldanha Lobo. Nomes como o do explorador Serpa Pinto (1846-1900). Tudo ali à volta da praça.
Hoje as famílias de Cabo Verde já não passeiam pela praça ao cair da tarde. Hoje os mais jovens já não namoram na praça e nela já não se dança aos domingos e já não há bandas a tocar no coreto.
Mas hoje, à noitinha, quando os sinos da igreja chamam para a missa ou quando o relógio da Câmara marca as horas e as pessoas saem dos empregos, a praça ainda é o centro do mundo. Tu olhas e parece que estás em Portugal. Há coisas fantásticas não há?

Um bucólico abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Há coisas fantásticas não há?”

  1. 1 Maria

    Vc acha que render homenagens assim a colonizadores, é ter maturidade? Eu acho sinceramente que é lamber botas! Ah! mas tenho fé, que este povo orgulhoso e raçudo, um dia aprenda, a dar nomes de seus herois,à praçs e ruas, e aprenda a fazer seus monumentos. Um viva à liberdade, sem lamber botas!!!

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