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foto omar camilo, lusaCaro amigo

Depois da tua última e triste carta fiquei sem saber que te dizer. Sinto vergonha de te falar da bela ilha de Santo Antão, das suas duas encostas, uma pelada e outra cheia de pinheiros, das estradas íngremes e estreitas, entre montanhas. Depois de ler a tua carta prefiro falar-te… olha… de aguardente.
E começo pelo fim. Por te dizer que tenho aqui uma aguardente de cana, o famoso grogue, que segundo os especialistas é do melhor que há. Como me chegou? – perguntarás tu, com ar invejoso. Pois comprei-o directamente no produtor, envelhecido (o grogue, embora o produtor também esteja nos 80), à escolha, por mil escudos cabo-verdianos (um euro são 110,265 escudos cabo-verdianos, faz as contas para não te tornares madraço eheh).
João, o produtor, faz grogue há anos e anos num dos vales de Santo Antão, perto de Ribeira Grande. Passei algum tempo com ele, a ver como se faz a famosa aguardente, e fiquei de boca aberta (calma, calma, não é o que já estás a pensar) quando ele me contou as alarvidades que se fazem com a bebida, das mais consumidas em Cabo Verde.
Disse-me ele que há quem meta porcarias no mosto para fazer ele fermentar mais depressa. E essas coisas podem ser até pilhas, as vulgares pilhas, ou baterias.
Bem não deve fazer.
Mas disse mais, disse que como aqui têm a mania que se o grogue faz espuma é porque é dos bons então faz-se a vontade ao consumidor, que tem sempre razão. E como? Simples! Metem-se umas barras de sabão lá para dentro.
Bem não deve fazer.
Mas disse ainda mais qualquer coisita. O grogue demora dois anos a envelhecer, a ganhar gosto das pipas de carvalho, que lhe dão uma cor assim acastanhada e um paladar mais suave. Mas dois anos é muito tempo, quando se pode vender amanhã o grogue de hoje como se fosse de 2005. É simples, o ácido sulfúrico dá o mesmo efeito.
Bem não deve fazer.
O João garantiu-me a pés juntos que aquilo que sai dali da casa dele é pura aguardente de cana-de-açúcar. Vi a faze-la, vi as pipas cheias, provei o novo e encantei-me com o velho (estou outra vez a falar da bebida, porque o senhor João é mesmo um senhor e não lhe estou a chamar velho).
Mas fiquei surpreendido com o que se vai fazendo por este mundo. Aqui na Praia falei disto a alguns amigos que me disseram que é uma prática comum e alguns deles até me disseram que já presenciaram a falcatrua.
Eu não sei. Mas desconfio que andar por aí a beber aguardente misturada com o ácido das baterias, com sabão e com ácido sulfúrico é coisa para bem não fazer.
Mas quem é que compra isso? Perguntei eu ao senhor João. Ele encolheu os ombros, olhou para mim como se eu fosse tontinho, fez uma espécie de sorriso e respondeu-me assim: “o pessoal bebe qualquer coisa”.
Pois. Bem não lhe deve fazer.
Uma das garrafas que lhe comprei partiu-se pelo caminho. O cimento não derreteu. Vamos a ver. Mal não deve fazer.

Um abraço

Fernando Peixeiro