Gostava muito de acreditar
Publicado por Fernando Peixeiro 25 Novembro 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo
Como deves imaginar, quando vives, e trabalhas, assim como eu, tanto tempo num país, pode acontecer-te duas coisas, ou te tornas também um filho da terra, em menor ou menor grau, ou se por qualquer motivo embirras com ela começas a odiá-la cada dia com mais força. Confesso-te que me sinto já um pouco praiense. Mas se calhar não o suficiente para hoje amanhecer um homem feliz.
Se fosse praiense de coração hoje andaria com um sorriso de orelha a orelha, olhando cada recanto desta cidade, cada pessoa, cada situação, com o olhar de quem está muito feliz. Mas nestas coisas eu diria ao contrário de Saint-Exupéry, correndo o risco de me considerares um insensível, não se vê bem com o coração, o coração não nos deixa ver a verdade, pelo contrário, torna-nos se não cegos pelo menos um bocado estrábicos.
Mas andaria feliz porquê? Perguntas tu. É que esta semana foram anunciadas tantas coisas para a Praia, tantos projectos, tantas obras, tantos investimentos, que a acreditar esta cidade será linda dentro de três ou quatro anos. E será linda porque agora, na verdade, é feia, desorganizada e suja.
Mas espera! Numa zona perto da praia, aqui a dois passos de onde moro, vai ser construído um grande hotel e embelezado todo o local (que bem precisa, coitado). Mesmo ao lado será um hipermercado e um restaurante, aproveitando a vista magnífica do mar, impróprio para banhos, é certo, porque mesmo ali a dois passos afluem alguns dos esgotos da cidade.
Mas continuamos. Á entrada da cidade para quem vem do aeroporto mais um hotel, mais uma torre, mais escritórios, não sei quantos milhões, para ficares de boca aberta com a cosmopolita Praia, capital de um país africano, pequeno e pobre.
Depois segues em direcção ao centro e dás com um complexo de escritórios do teu lado direito, um centro de congressos, um hotel, um lugar para exposições e duas torres enormes todas em vidro.
Mas há mais. Para os lados da saída para o interior estará em construção o estádio nacional de Cabo Verde, mesmo ao lado do maior e único centro comercial da cidade, com centenas de lugares para estacionamento.
E a acrescentar a tudo isto as ruas, que são uma miséria, vão ser todas asfaltadas. Se te disser agora aqui, porque me lembro que ficava bem, que vão construir uns jardins, uns parques infantis, mais não sei quantas escolas, hospitais, restaurantes, esplanadas, cinemas (porque não há um único neste país), teatros e tudo o que quiseres tenho a certeza que se nos lessem os responsáveis deste país diriam que sim, que está tudo planeado.
Mas… se agora já falta a água e a luz tanta vez, como será com isso tudo? Está também a ser resolvido, não faltará luz para arrefecer as belas duas torres de vidro, coisa inimaginável num país onde faz sol todo o ano. E escrevo de novo: TODO, em maiúsculas, para que não tenhas dúvidas.
Adiante. E o lixo deixa de se acumular nas ruas? Pois claro. E as ribeiras deixarão de ser lixeiras? E a água do mar deixa de estar tão poluída? Está tudo a ser tratado!
O tal hotel com as tais torres, as Praia Towers, fica mesmo em frente à Praia Negra, a mais poluída da capital e hoje um cemitério de barcos. A coisa vai ser resolvida? Vão sair dali os esgotos? Poderão os turistas atravessar a rua e ir dar um mergulho? Ah! Claro!
Gosto desta cidade mas não estou apaixonado por ela. Se estivesse hoje andaria com o tal sorriso, porque não teria as dúvidas que assim andam aqui às voltas. A rua esburacada por onde passo todos os dias para chegar a casa, a falta crónica de passeios nas novas urbanizações, as zonas mais importantes da capital totalmente às escuras, o lixo por todo o lado, as constantes notícias sobre assaltos, e degradação de bairros inteiros não me deixam sorrir.
Gostava muito de estar enganado. Gostava muito, acredita, de acreditar.
E gostava também que 2008 não fosse ano de eleições autárquicas. Poderia ser que hoje andasse por aqui pelo menos com um sorriso.
Um sisudo abraço
Fernando Peixeiro



Meu caro e bom amigo Peixeiro.
Rápido a pensar e arguto a intuir, vais, depressa, perceber que não falo do alto de uma vaga experiência para dizer o que vou escrever a seguir.
Mas, que fique claro, estou, seguramente, no grupo dos teus leitores que melhor apreende o que procuras clarear. E sublinho a perspicácia. Mas para o teu cerca de um ano na Praia.
Não me vou alongar muito, porque o retrato que fazes é a fotografia que não fica mal em nenhuma parede de quem conhece Cabo Verde a a sua capital.
Mas, ó Peixeiro, e digo-o em tom ensolarado, acho que colocas mal a questão ou as questões.
Explico porquê: Cabo Verde são 10 calhaus(alguns com musgo - é metáfora -, como Santo Antão e mesmo Santiago) no meio do mar, secos, areados, rudes, desertificados… Não há petróleo nem diamantes. Por pocuo tempo, consta!!
Logo, antes do esbugalhado olhar sobre as incoerências do dito, eu prereriria perguntar: Como é que um país que nada tem(descontando a emigração e outros pormenores que “passam” pelo arquipélago), chegou ao que chegou. O topo, em África, do IDH do PNUD. A escolariazação da população(fraca aqui e ali, melhor ali e acolá), a saúde minimamente decente, uma democracia quase a passar a fasquia da maturidade, um sistema judicial que, apesar de tudo, vai funcionando e é muito bom em termos comparativos continentais(…) etc. etc. etc.
Ou seja, saber o que existe e procurar a fórmula usada para o explicar, é mais importante que questionar o que é prometido e desconstruir as suas pontas soltas. O caso da energia eléctrica é por demais evidente. Não vai dar para tudo!!! Já não dá para o que existe…
Que se está a enfiar o carro para lá do focinho das animálias, sem dúvida, mas que o percurso feito até agora só foi possível com o carro devidamente colocado antes do cu dos bois, também me parece óbvio.
Mas custa, custa de facto entender a ligeireza com que esses bilionários investimentos são atirados, como pó di terra ou bruma seca para os olhos das pessoas.
Enfim, Peixeiro, o que eu acho que é que essa malta vai querendo muito porque sabe, de experiência feita, que conseguir o pouco já é muito bom para um país com essas condições.
Eu estou em crer que na fala de petróleo e diamantes, apesar de os chineses já terem dito que queriam o gás natural dos seus mares, Cabo Verde deve o que é aos poços de saber que foram escavando, enfim, às suas idiossicráticas elites.
Olha… abraços companheiro.