Caro amigo

Acho que estás a precisar de férias, tão abatido te sinto nas tuas cartas, tão desgastado, desiludido. Os políticos, às vezes, é melhor esquece-los. Mas como podemos nós? Eu tento mas eles não me deixam. Fazem tanto barulho… No Sal acordaram-me todos os dias antes das oito e aqui na Praia levo com eles tardes inteiras. E quando passam não penses que é com pezinhos de lã.
Ainda esta semana, ontem mais precisamente, estava eu com a Carla a beber um café na esplanada do Boca Doce quando passou um. Um carro, um camião, com um gerador lá encima e duas potentes colunas de som. E quando chegou ao nosso lado ficámos, eu e ela, pobres mortais, de olhos esbugalhados e boca aberta, porque sempre ouvimos dizer que se fecharmos a boca podem rebentar os tímpanos.
Escapámos. Mas digo-te que não é fácil. E a tendência é para piorar, porque as eleições são só a 18 de Maio. Autárquicas, o que quer dizer que se eu quisesse, e pudesse, fazer um retiro espiritual numa terrinha qualquer aqui do interior também não me livrava dos camiões de gerador e colunas em riste.
São os chatos, sabes? Porque é que eles não oferecem uns fones a quem quiser e emitem numa frequência qualquer, melhor se for baixa? Não!!! Têm a mania de nos acordar aos sábados de manhã a anunciar um comício que vai acontecer ao final da tarde. Como se tu, acabadinho de adormecer profundamente, estivesses interessado na apresentação dos candidatos à Assembleia Municipal, às seis da tarde. Apetece abrir a janela e gritar, que votamos neles sim, já, agora, mas que, por favor, vão pregar para outra freguesia. Mas sabes que não vale a pena porque eles não te ouviriam. Tanto mais que tenho cá as minhas desconfianças de quem anda a conduzir aquilo são pessoas surdas. Se não são agora vão ser bem rapidinho.
Porque é que eles não fazem uma campanha mais sensata? Passa para cá o avental, o saco de plástico, a camisola, a caneta, e dia 18 lá estaremos!
Digo eu, que não voto cá. Mas a malta, o povo, os sofredores aqui das ilhas também preferia. Digo eu também, porque aqueles trovões ambulantes se calhar até agradam a alguém. Que mais não seja aos condutores das Hiace, os tais carros que fazem aqui a ligação entre as diversas vilas da ilha, que quando vão ao volante, normalmente a transportar mais 10 pessoas do que o permitido, metem a musica tão alta que já se ouve no destino e ainda não partiram. Deve ser para não ouvir os gemidos dos passageiros…
Mas olha… não era nada disto que te queria falar!! Distraí-me para aqui!! As conversas às vezes são assim. Levam-nos onde menos esperamos. E as músicas também!!
Bem… se serviu para alguma coisa que tenha sido para te mostrar que se calhar as coisas não estão assim tão mal aí. A esses basta que tires o som da televisão.
E depois é só preciso um bocadinho de paciência. Eles acabam por cair de maduros. Como o Luis Filipe Menezes acabou de cair. Aqui não. E furar pneus dá mais trabalho.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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