Foge a sete pés
Publicado por Fernando Peixeiro 27 Fevereiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Apesar de tudo o que me dizes ainda sou dos que se sentem mais seguros ao lado de um polícia do que de um ladrão. Sei que às vezes há histórias macacas (não sei de onde vem o termo mas acho que fica aqui a matar – olha… outro que também não sei de onde vem). Mas já, em trabalho, andei a espreitar um dia, assim meio disfarçado de polícia, imagina, as condições em que eles vivem. E não lhe invejo a sorte.
Se calhar nunca estamos verdadeiramente seguros em sítio nenhum, essa é que é essa. Suponhamos, é só um suponhamos, que decido ir viver para uma ilha assim das mais isoladas aqui de Cabo Verde. Vou para Santo Antão, que ao que parece é bonita, e escolho assim tipo a vila de Ponta de Sol. O nome até é agradável, a terra também o será, pequenina como convém, onde nada acontece e onde estarei seguríssimo mas também aborrecido o resto dos meus dias, porque, suponhamos, não se passa nada.
Se calhar foi o que fez Laurence Scott Baker, um respeitável norte-americano de 57 aninhos, natural de Washington, que vive na Ponta do Sol há três anos. Quando o encontrar na rua deverei pensar: “Olha, um norte-americano esperto! Deixou os States, a confusão, e veio para aqui gozar o descanso e a reforma”. Até o imagino! Fumador de cachimbo, ar calmíssimo, barba já branca e cuidada, passos seguros mas lentos, de quem anda sem pressas, simpático sem ser popular, respeitado por todos e até admirado por uma ou outra viúva. Mas a mulher, essa sim muito simpática e amiga, não merece.
O casal decidiu, pelos vistos, fixar-se definitivamente na Vila. Tem uma casinha simples e simpática, virada para o farol, onde o mar quase lhe entra, e está a mobilá-la com gosto. Chegou-lhes há dias um contentor cheio de mobílias importadas da África do Sul. Naturalmente porque serão mais baratas, porque será um estilo que lhes agrada, porque sim, porque têm esse direito.
Mas olha… não sei por que azar foi aquele, que distracção do pobre homem, mas a polícia encontrou no contentor do homem armas, munições, explosivos, rádios de comunicações e fardamentos militares. Há… e também encontrou mobília, claro.
Espingardas automáticas, dizem uns, apenas uma metralhadora, dizem outros. O nosso afável cidadão ainda teria mais umas coisas, como medicamentos fora de prazo, vá lá saber-se para quê, e três outros pacatos cidadãos estrangeiros a viver na casa, que foram também presos mas entretanto libertados.
Na época em que vivemos isto dá medo. É que só em munições seria um verdadeiro arsenal. Para quê? Perguntas tu. Essa deve ser a questão que a polícia mais colocou ao senhor. Não sabemos é se ele responder. Ou se vai dizer que é para matar cagarras no Ilhéu Raso, ou tartarugas marinhas… O que se sabe é que aqui em Cabo Verde estão presos alguns grupos ligados ao contrabando de droga, diz-se que poderosos, e as cadeias não são, reconhecidamente, das mais seguras do mundo. Por exemplo. Mas Cabo Verde está aqui a meio do oceano, um tirinho (esta ainda é melhor) até à América do Sul e outro tirinho até África.
Olha caro amigo, se souber mais alguma coisa depois te contarei. Mas ficas avisado. Se fores passar umas férias a uma pacata aldeia aí do interior e encontrares um calmo senhor de 57 anos, a fumar cachimbo, com ar de estrangeiro permanentemente de férias, à espera de umas mobílias da África do Sul, foge a sete pés. E se descobrires a origem destas frases feitas todas conta-me também.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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