Felicidade pura

Caro amigo

Por aqui também já se aproveitam os fins-de-semana para marcar pontos nas autárquicas de Cabo Verde que vão acontecer no próximo ano. Mas ainda é o tempo de passar um domingo na praia, dançar, jogar futebol e… claro… beber uns grogues e conversar. Benditos domingos sem campanhas eleitorais, ainda que estas também sejam um bom pretexto para dançar, beber uns grogues e conversar.
Aos domingos, em Santiago, também se vai à terra. Como em Portugal, nos fins-de-semana as grandes cidades ficam mais vazias e as estradas que levam às vilas e aldeias mais concorridas. Em Santiago, os que trabalham na Cidade da Praia aproveitam para ir ver a família e os amigos no interior, comer a mais saborosa cachupa, beber a aguardente mais genuína e ter as conversas mais puras.
Sabias, caro amigo, que aqui em Cabo Verde, há uns anos, se fazia chá de barata para as crianças? Tinha de ser uma barata apanhada na casa de um vizinho. Bastava uma para o chá, que os bebés bebiam para os proteger contra bruxedos. E sabias que à falta de uma baratinha também servia um pouco de xixi? Soube-o num destes domingos, na Praia Baixo, a meia hora de carro da Cidade da Praia.
São assim os domingos em Santiago. Dias de encher carrinhas de caixa aberta, às vezes com um estrado a meio e pessoas por baixo e por cima. Se vão mulheres estarão na parte de baixo, sentadas e necessariamente de cabeça semi-baixa, para caberem. Por cima, encavalitados, os homens. São as excursões à praia de pessoas felizes, que fazem questão de o mostrar a toda a gente. Aos domingos as aldeias perto do mar recebem esses grupos ruidosos, com música no tejadilho para todos, palmas e assobios. Felicidade pura. Fazem-se idas à praia de dezenas de jovens, com um belo cartaz na cabine da camioneta a dizer “visita de estudo”, para dar um ar mais institucional aos mergulhos e uma merenda à sombra das acácias.
Pela tarde joga-se futebol. Joga-se à bola, melhor dizendo. Vão buscar-se os equipamentos, muitos cedidos por clubes famosos de Portugal, bebem-se uns grogues para aquecer e corre-se à torreira, no meio do pó. O intervalo é também felicidade pura. Dá para ir ao café mais perto beber mais um grogue. E se a demora é muita lá aparecerá o treinador, a ralhar. Naturalmente o segundo tempo não rende. E quando a derrota bate à porta a coisa resolve-se com umas discussões, uns gritos, e mais um grogue, porque é domingo.
Ontem, estava eu num desses cafés de Praia Baixo, entram dois jovens acabadinhos de terminar mais uma partida, que por sinal perderam. Vinham cansados, cheios de calor, a arfar. O mais cansado entrou de rompante e segundos depois tinha um copo na mão. Bebia avidamente, água ao que julguei. Mas não caro amigo, era grogue.
Há-os para todos os gostos: rasca, martelado, com mistura, com sabores, de Santo Antão, de Santiago, até grogue engarrafado, imagina tu, em garrafas de Superbock de tara perdida, uma louvável medida de protecção do ambiente.
E depois do futebol haverá sempre uma festa. Um baptizado, um casamento, um aniversário. Tudo serve para se fazer uma festa. Ontem comemorava-se, com grogue, a chegada de três pescadores que quase morreram no mar, em Março passado. Duas festas, melhor dizendo, nas casas de dois dos quase náufragos. Na rua de uma dançava-se. A aparelhagem, da sala, quase não deixava ouvir as conversas. O náufrago, bem bebido e que queria contar a sua aventura, baixava o som, os jovens, que queriam dançar, aumentavam-no. E assim decorria a tarde. Ao ritmos da dança, da histórias e do grogue. Felicidade pura.
Haverá sempre uma festa em Cabo Verde. E se não és convidado não faz mal. Vais à mesma. Já fui a várias, ainda ontem a duas, e raramente sou convidado. E quando acontecer que seja um casamento, algo mais pessoal, garanto-te que não me vou inibir. Até essas festas têm a sua quota parte de “penetras”, que por norma fazem o obséquio de deixar que os convidados, os verdadeiros, os genuínos, façam primeiro as honras da mesa.
Mas aqui há sempre grogue para mais um. Aliás os donos das festas fazem questão que a sua seja a melhor, a que dura mais, a que tem mais gente, a que esvazia mais garrafinhas de Superbock.
Recebe-se muito bem em Cabo Verde, caro amigo. E em Cabo Verde, se mais não for no fim-de-semana, haverá sempre uma festa qualquer. Música, comida, grogue e histórias para contar. Aos domingos. Santiago. Felicidade pura.

Um feliz abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Felicidade pura”

  1. 1 Maria Joao

    Participei num périplo da UNESCO, Centro Norte/Sul e outras instituições em África que começou em cabo Verde. Às 8 da manhã, lá estavam a bater-nos à porta do motel na Praia e tínhamos de estar prontos.
    Pois durante 10 dias, parte do grupo desta missão (devíamos ser uns 15 e havia polacos, húngaros, o câmara-men era francês casado com uma brasileira que adorava dançar…) dormiu apenas uma hora. Durante 10 dias dormi 10 horas, uma hora entre as 7 e as 8. Vinha um grupo de velhotes e gente alegre, com cavaquinhos e violas, e grogue, e a gente, depois do jantar, ficava pelo terraço, em frente ao mar, a cantar e dançar até às 6 da matina. Por volta dessa hora, eu ia para a baía nadar, passava na piscina do hotel e ainda dava o último mergulho…às vezes nem coragem para o duche…caía na cama redonda, às sete. ÀS 8 lá estava prontinha.
    Ricos 10 dias da minha vida, inesquecíveis, belíssimos, com gente linda!
    E depois… dormi muito em Moçambique…eh…eh…
    MJoão

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