Caro amigo,

não conheci ainda nenhuma mulher que sobrevivesse graças a uma panela e desejo, na verdade, nunca vir a conhecer. Mas queria falar-te hoje, muito brevemente, de um homem que sobreviveu graças ao seu pensamento e atitude perante a vida e que é hoje das pessoas mais faladas e conhecidas em Cabo Verde. Chamou-se Baltasar Lopes da Silva e se fosse vivo tinha feito esta semana 100 anos.
Escritor, poeta, Baltasar Lopes da Silva, com outros dois escritores, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, criaram em meados do século passado uma nova forma de literatura em Cabo Verde. Serviram-se de uma revista, “Claridade”, para mexer consciências, levantar ideias, mexer no marasmo cultural de então, tudo em pleno regime fascista que Lisboa estendia a todas as suas colónias.
Se não leste tens de ler “Chiquinho”, o livro desse homem, professor, que fala, pela primeira vez, dos problemas das ilhas, da sua pobreza, das dificuldades que é sobreviver num arquipélago que só dava pedras, muitos anos antes dos promotores do turismo descobrirem que Cabo Verde era também sol e praia e muitos anos antes da Europa colocar o arquipélago na moda.
Ainda ontem, aqui na Praia, o Presidente da República lembrou o movimento literário que os três criaram como um legado não só de Cabo Verde mas do mundo. Começou em 1936 no Mindelo, e espalhou-se por todas as ilhas, levado pelas águas do oceano nas cabeças de cada um. Chegou ao velho continente, a Lisboa. Chamou a atenção da antiga polícia do Estado, a Pide. E  foram só nove os números que se publicaram.
Baltasar Lopes da Silva não se importou. Fez até morrer aquilo que sempre foi a sua vida, o ensino. E sabia. Sabia que a Pide o vigiava, lhe lia avidamente os escritos à procura de um motivo para o mandar prender. Mas nunca encontrou ou nunca teve coragem.
Depois do 25 de Abril e da independência de Cabo Verde instalou-se no arquipélago um regime de partido único. Livre pensador, crítico quando o entendia, homem da cultura e não da política, Baltasar Lopes da Silva voltou a estar na mira das autoridades pelas suas, as vezes, vozes incómodas. Chegaram a pensar prendê-lo mas também, como a Pide, não tiveram coragem.
Prender Baltasar Lopes da Silva, caro amigo, tinha-se tornado impossível. O seu carisma, a sua cultura, o seu modo de pensar e viver, a sua integridade, tinha-o tornado inacessível. E imortal. Faz-nos falta mais homens assim.

Um abraço cultural
Fernando Peixeiro


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