Eu acredito

Caro amigo

Sai um gajo do trabalho, pouco antes do meio da tarde, para passar duas horas sentado, dentro do carro, a olhar para a casa onde morou. Não sai do carro, não fala com ninguém, não usa o telefone, não lê, nada! Fica só ali, a olhar para a casa, para os lados de vez em quando, a ver pelo espelho retrovisor o trânsito e as pessoas à porta do hotel. Duas horas depois pura e simplesmente vai embora. São saudades? Estará louco? Não está. Só acredita.
É bom acreditar e espero que quando um dia deixar Cabo Verde continue a acreditar. Foi por acreditar que peguei no carro às três e meia da tarde e, como combinado com os serviços da água e luz de Cabo Verde, fui para a minha antiga casa à espera de uns senhores (ou senhoras, mas acredito que senhores) me fossem lá cortar a água e a luz.
Apareceste tu? Assim apareceram eles. Dois dias antes tratei pacientemente dos papelinhos todos, assinei tudo, deixei o meu número de telefone, telemóvel, para ser facilmente contactado, deixei que fossem eles a marcar a data e a hora em que lá iriam para consumar o acto.
Não apareceram, não telefonaram, e isso não me espanta. Há quase quinze dias telefonei, pela terceira vez, à senhoria da nova casa para me entregar uma chave que me falta e providenciar para resolver dois pequenos problemas, um estore e um ligação de uma das casas de banho. Ai sim senhor. É para já.
A mulher não é funcionária pública mas está a funcionar como tal. Diz que sim a tudo mas depois não faz nada.
Com o telefone foi a mesma coisa. Bom dia, estava a telefonar para saber quando me vão ligar o telefone, é que disseram que era até quarta-feira mas já passaram mais de oito dias. Vou já falar com o técnico e já lhe ligamos. E depois passaram dias e dias. Contei-te isso.
O governo de Cabo Verde, na senda da modernização, das parcerias estratégicas, do salto em frente, do desenvolvimento, da graduação, farta-se de falar de uma administração pública eficiente mas a sensação que tenho aqui, quando preciso dela, é de que está tudo colado com cuspo, que nada funciona, que não há responsáveis, que não se trabalha à segunda-feira de manhã, que não se faz nada à sexta à tarde.
Digo-te, caro amigo, vou acreditando quando me dizem que ligam, que tratam, que fazem, mas na verdade não me espanta que não liguem, que não tratem, que não façam. Aqui nas ilhas as coisas não se fazem, vão se fazendo.
Esta semana foi apresentado com toda a pompa o novo portal da administração pública. Devias ver. O primeiro-ministro, o ministros todos, os embaixadores quase todos, enfim… para contar ao pormenor (até a coisa avariar) o que se podia encontrar no portal. Portondinosilha. Não havia que enganar. E quando cheguei a um local com Internet a primeira coisa que fiz foi experimentar o endereço. Não funcionava. Anunciaram largamente a página como portondinosilha mas fizeram-na sim como portondinosilhas. Agora lá resolveram a coisa, um e outro “porton” vai dar ao mesmo sítio.
Acredito nas boas intenções da ministra das Finanças, que quer uma administração pública eficiente, mas olhando para esta tenho muitas dúvidas que se passe das intenções.
Eu por cá vou acreditando. Mas se um dia destes me cortarem a água e a luz da casa onde vivo e deixarem a outra como está nem sequer me vou admirar.

Um crédulo abraço
Fernando Peixeiro


1 Response to “Eu acredito”

  1. 1 Guinevere

    Amigos,

    Lamento, mas há muito que deixei de acreditar. Aqui em Portugal as coisas não funcionam muito melhor que em Cabo Verde.
    Mas, não foi só nestas coisas práticas que deixei de acreditar.
    Deixei de acreditar basicamente em quase tudo. E, principalmente, deixei de acreditar na maioria dos seres humanos enquanto seres humanos.
    E lamento, principalmente por mim (desculpem-me o egoísmo).

    Abraços e beijos