Estranhas estradas estas
Publicado por Fernando Peixeiro 7 Julho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Falei-te há dias da alegria que é haver, agora, ligações a tempo e horas entre as ilhas, graças a uma empresa privada. A mesma que faz também os transportes de e para o interior de Santiago. Parece. Para mim é tudo uma confusão. Mas para a velhinha que, à beira de uma estrada qualquer, me pede boleia, não deve ser.
A confusão vê-se nas estradas. As ligações fazem-se, na maior parte das vezes, em Toyotas Hiace, que viajam quase sempre apinhadas de gente, apertadas e esmagadas no meio do calor que sempre faz aqui. Mas as Hiace (aqui lê-se como se escreve) competem entre si ferreamente. Se uma está meio cheia e a outra meio vazia fazem corridas loucas pelas “paralelepípedas” estradas, ultrapassando-se para apanhar os passageiros que possam estar na próxima curva. Numa lógica niilista ultrapassam em curvas, derrapam nas bermas, chocalhando os passageiros, a essa hora loucos de desejo de um bem-aventurado grupo que encha a “iace” como um ovo.
A confusão, para mim, começa no mercado de Sucupira, em pleno centro da capital, onde se amontoam dezenas de Hiaces, para dali partirem para a província. É fascinante! Há placas com indicações onde formam os autocarros para Pedra Badejo ou para o Tarrafal mas não há autocarros. Também não há horários afixados. Apenas uma mole de gente girando, conversando, discutindo, comendo, vendendo e comprando, e partindo, não sei como, para os seus destinos.
Dizem-me que, ali, os horários nunca são cumpridos. Um autocarro, ou melhor dizendo um mini-autocarro, para a Assomada parte… quando estiver cheio. Às vezes fico com a sensação que nem é bem assim. Pelo menos quando vejo uma “iace” já a ganhar velocidade pelas ruas de Sucupira, de porta lateral aberta e um homem de pé, meio dentro meio fora, aos gritos de “Assomada”, “Assomada”. Anda à procura, por certo, dos viajantes mais distraídos. Será bom que os encontre, é um seguro de vida para os que já lá estão dentro se o veículo estiver à cunha.
Porque estrada fora a recolha pode ser incerta. Sempre vejo, quando viajo pelo interior, grupos de pessoas à espera de transporte. Mas também vejo que todos pedem boleia, e conseguem muitas vezes. Aqui, como em Portugal há três décadas, ainda há o costume saudável de andar à boleia. Todos pedem, homens e mulheres, jovens e velhos. E quando vejo mesmo uma velhinha gorda, com um grande alguidar tapado com um pano, a esticar-me o dedo, não me espanto. Espanta-me sim a coragem dela.
Há poucos dias, quando passeava com uma amiga pela costa oeste da ilha, regressava de Vila Mosquito e parámos numa aldeia, a meio caminho da Cidade Velha, mais de 30 quilómetros da Praia, para tirar fotografias. Ao nosso lado quatro miúdos, nenhum deles com mais de seis anos, pediram-nos boleia, imagina, para a Praia. Estavam ali eles, calmamente na brincadeira, quando pára um jipe e saem de lá dois adultos. Se eles não esperavam autocarro porquê o pedido? Disseram-me depois que é costume: é só para andarem de carro. Depois pediriam boleia de volta. Ou melhor ainda uns quilómetros adiante, apetites satisfeitos, pediriam para ficar por ali e regressariam a pé. São estranhas estas estradas de Cabo Verde não são?
Um recuperado abraço
Fernando Peixeiro



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