Estás bom? Estás!

Caro amigo

No dia em que começou mais um ano lectivo em Cabo Verde a ministra da Educação esteve numa escola a distribuir, com a embaixadora de Portugal, material didáctico para as crianças. Durante os discursos da praxe olhei para aqueles miúdos, muito ordeiros ali em silêncio, e tive a certeza de que não estavam a entender coisa nenhuma. Se fosse na Universidade provavelmente acontecia o mesmo.
É assim que me pareceu por bem voltar a falar-te do assunto da língua, no dia em que começaram as aulas e poucos dias depois do primeiro-ministro de Cabo Verde ter dito, na televisão, que sonha tornar o crioulo língua oficial até final do mandato.
Na verdade o português, apesar de língua oficial, é mal falado aqui. Na televisão até não se dá erros, nos jornais também não, os governantes falam bem, há uma elite que tem um discurso perfeito e fluido. Mas depois falta tudo o resto. Falo com miúdos, que me dizem até ter boas notas, que estão a terminar o ensino básico, e que na verdade não sabem falar português. Quando lhes pergunto: “Estás bom?”, eles respondem-me: “Estás”. Falo com adultos, que fingem que me entendem mas que na verdade não perceberam nada. Falo com jovens universitários que falam português comigo dois minutos mas que na verdade se sentem aliviados por abreviarem o assunto numa língua na qual não se sentem à vontade.
Mas os professores não dão as aulas em português? Perguntas tu. Dão. O mal é que muitos deles também mal falam a língua. E se começam uma aula em português nos 10 minutos seguintes já estão a falar crioulo.
O que me parece, caro amigo, é que não há vontade de ensinar bem a língua, virados que estão todos para o crioulo. Mas confesso que não entendo. Qual crioulo? Cada ilha tem o seu, cada palavra pode escrever-se de quatro, cinco, oito maneiras diferentes. Como é que vão uniformizar uma língua que é essencialmente coloquial para a tornarem oficial? E com que objectivo?
Ainda no mês passado o jornalista Ferreira Fernandes escrevia no Diário de Notícias, a propósito de o galego começar a ser ensinado nas escolas da Galiza, que “esta deriva galega” se integra “no menosprezo de uma das grandes línguas mundiais, o espanhol, que já deixou de ser ensinada como devia na Catalunha e no País Basco”.
“Vão perder os miúdos galegos, como já perderam os bascos e os catalães. Tal como os miúdos cabo-verdianos perdem por não aprender o português mas o crioulo. Não falo, claro, na nobreza das línguas (todas são nobres). Falo da I Divisão Mundial das Línguas, onde estão o português e o espanhol. E não estão as outras nobres línguas aqui referidas”.
Eu concordo. O primeiro-ministro sonha com o dia em que as hospedeiras dos TACV dêem as boas vindas aos passageiros em crioulo. Pois que o façam, que diabo! Mas ensinem um português correcto nas escolas porque de isolamento já basta tanto mar!
E não caro amigo, ainda não falo crioulo. Mas experimenta perguntar-me se estou bom!

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Estás bom? Estás!”

  1. 1 ricardo

    Eu acho, Peixeiro… eu acho que nos próximos dois anos, visto que já levas um de Cabo Verde, ainda vais ter coragem para falar de um assunto, do qual já estarás devidamente informado, mas que ainda achas, por neófito seres no “kao”, ser cedo para abordar. E qual? Os cabo-verdianos, de uma forma geral, não gostam dos portugueses e os portugueses, especialmente os responsáveis diplomáticos, acham que isto não é verdade porque os cabo-verdianos são do Benfico ou do Porto ou do Sporting e andam com a camisola da selecção portuguesa nas ruas. Como se enganam, os cabo-verdianos, por gente de mundo ser, têm apenas um clube, mesmo podendo este clube ser a selecção portuguesa durante os mundiais, mas isso em nada os liga ao país. E basta ver como, mesmo do ponto de vista da mercearia, se prejudicam por causa deste sentimento. Na Televisão de Cabo Verde, quando o telejornal passa ao internacional, pode-se ver uma notícia da Bielorussia ou mesmo da Eslovénia, mas de Portugal, onde toda a gente tem um primo, irmão ou cunhada, nada, simplesmente nada… Fraz sentido?? Faz, se se tiver em conta que em Cabo Verde não se gosta de Portugal. Eu, por acaso, gosto imenso de Cabo Verde e de alguns cabo-verdianos. E sei que os cabo-verdianos gostam de alguns portugueses. Sendo este sentimento mais notório quando os ministros de Lisboa se passeiam pelas ilhas a distribuir cheques ou ajudas nas mais diversas áreas… Enfim! Quanto ao português que, de acto, não se fala em Cabo Verde, mesmo que alguns, o falem muito bem… Das duas uma, ou dá jeito as elites manterem assim as coisas porque, desta forma, tendo os seus filhos acesso ao bem falar português, o estatuto de eleite mantém uma coerência genética, geração após geração, ou, então, o lobby francófono no governo da Praia é poderoso… e é, de facto… É que, exterminando o português, depois é mais fácil ensinar francês… e a França bem precisa, tendo em conta o estado em que a sua língua se encontra no mundo…

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