Esta gente agradecia

Caro amigo,

seria interessante responder-te agora com outro escritor daqui ou com um livro que tivesse lido há pouco tempo. Infelizmente, aqui, os livros que leio são os que trago de Portugal, porque na capital de Cabo Verde não há uma livraria digna desse nome. E não é porque esta gente não goste de ler. Quando falei com alguns amigos de cá e lhes disse que ia a Portugal todos me pediram para lhes trazer livros.Que livros? Perguntei. Livros, tanto faz.
Aqui há uns meses fizeram na Cidade da Praia uma feira do livro. Abria às seis da tarde e quando lá cheguei, meia hora antes, não queria acreditar. Dezenas e dezenas de pessoas à porta, à espera pacientemente, para serem os primeiros a entrar.Disseram-me que havia ali pessoas desde o início da tarde.
E quando as portas da biblioteca da Praia se abriram, finalmente, foi o delírio. Era ver aquela gente toda, esfomeada de livros, a correr para as prateleiras. E a feira, que devia durar três dias, acabou praticamente naquela tarde.
Numa hora desapareceram os dicionários de português e tudo quanto era livro técnico. De computadores, de engenharia, de direito, de ciências, de medicina.
Todos, meu caro amigo, passando por romances de escritores portugueses, de escritores traduzidos e de autores cabo-verdianos.
E eu, que ia “feito” para comprar uma boa quantidade de autores do país, que mal conheço, perante aquela sofreguidão, acabei a retrair-me e a comprar um único livro. Pensei que não tinha o direito de estar a comprar livros quando posso, numa ida a Portugal, faze-lo comodamente e sem problemas de consciência.
E quando chegou a hora de pagar comoveu-me ver aqueles pais a desembolsar 30 e 40 contos para os livros dos filhos. Eram, em moeda portuguesa, 300 ou 400 euros, para um país onde um ordenado bom não ultrapassa os 700 euros.
Depois daquele dia pergunto-me sempre porque razão a Praia teima em não ter uma única livraria e porque razão não se organizam mais feiras do livro.
Por mim, contribuirei modestamente com uma ida à FNAC na próxima viagem a Portugal. Não posso abrir uma livraria na Cidade da Praia, mas posso fazer alguns dos meus amigos felizes.
Pena que lá fora tanta gente não saiba disto. Porque se calhar até teriam uns livros a mais que não se importavam de mandar para cá. Esta gente, amigo António, agradecia.
 

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Esta gente agradecia”

  1. 1 Maria

    Fernando!!!!!!!!!
    Verdade?????? Tudo isso por um livro???? Deus do Céu!!! Um livro bom, aqui no Brasil, ou um bom romance, digamos que esteja em torno de R$ 40,00, e um livro técnico em torno de R$ 100,00. Sei que há muitas livrarias na internet, mas não faço idéia do custo do frete, para um livro chegar até Cabo Verde.
    Lamento que vcs sejam explorados até nisso, sei que a água é cara, a energia elétrica tb, a telefonia, nem se fala…
    Abraço brasileiro..e não se preocupe, este nada custa…
    Maria

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