Caro amigo,

pois daqui da ilha de Santiago digo-te que é o mesmo. Em muitas coisas Cabo Verde é como Portugal, já to tinha dito, e especialmente naquela técnica fantástica que nós temos de andar a “encanar a perna à rã” durante dias, semanas, meses ou anos e depois, de repente, quando os prazos apertam, dar-nos a fúria de trabalhar. Normalmente desenrascamo-nos. E não digas mal da palavra, até vem no dicionário e tudo!
Enrascar é, segundo esse belo livrinho, o mesmo que “apanhar em rasca ou rede”, lograr, enganar. Mas também pode ser criar dificuldades, fazer cair em cilada, encravilhar, encalacrar-se. Já agora digo-te que encravilhar é por cravelhas a alguém. E o que é uma cravelha? Uma peça com que se retesam as cordas de certos instrumentos musicais para afinação.
Por isso, desculpar-me-ás, desenrascar é um acto do qual nos devemos orgulhar: essa capacidade de sair da rede na qual fomos apanhados, de estarmos a ser enganados mas conseguirmos escapar, de estarmos a cair numa cilada e sairmos dela, de estarmos todos tesinhos que nem uma corda de guitarra e conseguirmos dar alguma folga para respirarmos. E temos nós culpa de viver em países que nos enrascam? Não! Só temos é que desembaraçar-nos, livrar-nos de apuros, sair de dificuldades, ou seja desenrascar-nos.
Dou-te um exemplo de como Cabo Verde e Portugal são igualmente desenrascados. Aqui na rua que sobe para a Achada de Santo António, da marginal para uma das colinas da Praia, está um numeroso grupo de homens a fazer uma obra desde que eu vim para cá: quatro meses.
Em quatro meses, caro amigo, conseguíram completar um passeio e abrir uma vala para a água passar, quando chover lá para Outubro. Agora, na última semana, parece que tomaram alguma coisa. Uma espécie de Viagra mas para dar vontade de trabalhar. Montaram uma rede, fizeram painéis que estão a ser pintados, pintaram muros. E hoje já vão acelerados, marginal fora, a arranjar tudo.
Eu olho e parece Portugal. No próximo fim-de-semana há aqui um festival musical e naturalmente a Câmara deve ter dito que queria aquilo tudo pronto. E já vês, os homens que andaram por ali este tempo todo encravilhados agora tiveram de se desenrascar.
Mesmo em frente ao meu escritório, dizem-me que desde Dezembro, andam outros que me parecem um bocado encalacrados. Estão a pôr relva sintética num campo de futebol que ao que parece devia estar pronto há três meses. Da relva nem cheiro. Bem… recapitulo… da relva nem cor.
Mas, caro amigo, são cabo-verdianos e é como se fossem portugueses. Os homens hão-de desencalacrar-se! Um dia destes, não tenho dúvidas, chego aqui e a relva está colocada e tudo pronto a funcionar. Será na véspera do dia em que o campo tem de ser inaugurado. Lembro-me que nós, quando da Expo-98, também foi assim. E desenrascámo-nos.
E até te digo mais. Não seria para Cabo Verde, que felizmente eles são desenrascados, mas Portugal devia exportar para outros países este “know how”. Promover seminários, cursos. Está encravilhado? Está encalacrado? Nós temos a solução!

Um abraço deste país irmão gémeo de Portugal.

Fernando Peixeiro


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