Entrevistá-lo? Prefiro comê-lo
Publicado por Fernando Peixeiro 12 Maio 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
vendo essas coisas por aí que bem me sinto aqui na minha duna, com ou sem cães. Não é que cá não aconteçam coisas terríveis, ainda ontem foram encontrados aqui numa praia perto dois corpos de dois bebés recém-nascidos, ainda há dias um soldado matou inadvertidamente a namorada. São notícias que se dão, claro, mas sem o folclore europeu. E ainda bem. Fosse aí e garanto-te que hoje seria o dia inteiro em directo da praia. Até os peixes entrevistavam.
Sabes como eu, meu amigo, que o “show” mediático não é só uma característica “tuga”. Metes uns quantos canais de televisão num país, juntas-lhes mais uns jornais e uma rádios, tudo privado, e o que é que sai de lá? As notícias que, dizem, o povo não quer mas vê. As audiências, pois claro, e por conseguinte a publicidade e por conseguinte o dinheirinho, que toda a gente gosta, pois então.
Ora a coisa aqui é diferente. Os jornalistas cabo-verdianos não serão melhores nem piores do que os portugueses ou que os ingleses, simplesmente o meio em que se movem é que é diferente. Eu explico-te: há um mercado publicitário mínimo, uma opinião pública espartilhada pelas ilhas, um único canal de televisão, poucos canais de rádio e nenhum jornal diário.
Com estes meios as pessoas recebem informação, claro, mas sem a pressão que se vive por exemplo em Portugal. Aqui a televisão abre às seis da tarde e fecha pelas 11 da noite. Tem dois serviços de notícias, curtos e sóbrios, às vezes chatos de mais. Não sofre a pressão de ter de dar uma coisa antes do outro canal, não tem a preocupação da audiência que pode estar a fugir para o vizinho e por isso a roubar-lhe a publicidade que, por acaso, quase não existe.
Depois há algumas rádios mas a principal, a Rádio Nacional, também não tem concorrência em termos noticiosos. Não há fuga de ouvintes para o canal que está a dar em directo entrevistas com os peixes da praia da Gambôa, onde foram encontrados os corpos dos dois meninos. Então o que é que a Rádio faz? O que tem a fazer! Noticia o caso, conta tudo o que sabe, e procura mais informação. E quando a tiver, por certo, irá dá-la.
Já este ano o governo licenciou novos quatro canais de televisão e um deles, por acaso, até já está a emitir mas praticamente só “enlatados”. Mas tenho muitas dúvidas que a imprensa aqui vá ficar como a “nossa”. Simplesmente porque não há dinheiro. E o dinheiro/audiências é o que nos move aí em Lisboa.
Lembro-me de uma vez, no Quénia, o meu guia me ter dito que era seguríssimo para um turista ocidental viajar no país. Temos o máximo cuidado, quase andamos com eles ao colo, se acontece alguma coisa a um turista ocidental no outro dia temos aqui a CNN, a BBC, a SKY, a fazerem directos debaixo de cada acácia, e dão cabo do turismo. Palavras dele.
Em Cabo Verde, quando duas italianas foram mortas na ilha do Sal, o governo tremeu, garanto-te, a pensar nos efeitos que isso iria ter no seu “ganha pão”. Por acaso não aconteceu nada, até porque se tratou de um crime passional. Mas que a imprensa italiana montou o belo “show”, lá isso montou.
É assim meu amigo. Paramos o país porque, infelizmente, desapareceu uma menina no Algarve, fazemos de heróis pedreiros de Barrancos ou correctores da bolsa burlões. Às vezes pomos e tiramos pessoas da cadeia. Às vezes somos justos e outras nem por isso.
Por mim acho que, nesse aspecto, aqui não se está mal. E sempre te digo: entrevistar um peixe da praia da Gambôa? Prefiro comê-lo.
Um sóbrio abraço.
Fernando Peixeiro



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