Endika e o absurdo

Caro amigo

A morte é sempre uma coisa triste mas há casos absurdos. Imagina um homem que passou um ano num cenário de guerra, a cumprir serviço militar, a conviver com as balas e as bombas, e que depois no dia em que regressou a casa, ao atravessar a rua para ir beber café, foi atropelado mortalmente por uma motoreta. É a isto que eu chamo uma morte absurda.
Pensei isso esta semana quando dei a notícia da morte de um espanhol aqui na Praia, Endika Iztueta, exilado há muitos anos nas ilhas por pretensamente pertencer à ETA do país basco, aí em Espanha.
Embora as autoridades cabo-verdianas não gostem muito de falar do assunto a verdade é que há um acordo para receber aqui essas pessoas que a Espanha não quer e que incomodam também a França.
O acordo vem da década de 80. Anos quentes em Espanha, ETA activíssima, a semear bombas e depois a recuar para o fresquinho do sul de França. Alguns desses operacionais foram apanhados mesmo aí, onde se tinham posto ao fresco, mas os franceses ficaram com pouca vontade de os recambiar para Espanha, com receio do tratamento que Madrid lhes poderia dar.
Então, num acordo entre os dois países, decidiu-se que os homens não ficariam em França nem iriam para Espanha. E assim foi. Uns foram reencaminhados para Cuba, outros para o México ou Venezuela, e outros ainda vieram aqui parar. Como Endika.
Endika adoptou Cabo Verde e não andou por aqui a por bombas não senhor. Tornou-se enfermeiro, trabalhou muito tempo no Hospital Agostinho Neto, da Praia, e dizem os colegas que sem ponta de mácula. “Foi dos melhores que tivemos no Hospital, quer em termos técnicos quer como pessoa, pela sua educação e simpatia”, disse esta semana a sua antiga chefe.
Mas esta semana Endika morreu. Vítima de uma carga de porrada, por um grupo de putos que o assaltou. Endika morreu. Não por lhe ter explodido uma bomba nas mãos. Não por ter sido apanhado pela polícia espanhola. Não numa troca de tiros numa operação terrorista qualquer. Mataram o Endika para o roubar. Eu acho que foi uma morte absurda. A vida, ela mesma, às vezes também é absurda.

Um abraço

Fernando Peixeiro


0 Responses to “Endika e o absurdo”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS