Em nome do pai

Caro amigo

Amílcar Cabral foi importante para Cabo Verde? O homem que esteve na fundação do PAIGC e do MPLA, movimentos de libertação da Guiné, de Cabo Verde e de Angola, merece um lugar na história do arquipélago? Esse homem foi assassinado faz hoje 35 anos. Como tinha ameaçado, volto a falar dele. Pela mão de quem sabe.
Iva é uma mulher muito inteligente. Estudiosa da vida e do pensamento de Amílcar Cabral, nota-se isso mal se senta e começa a falar. Conhece a história de Cabral mas também a história de Cabo Verde ou de África. E diz que o homem que impulsionou os movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas estava predestinado a ser morto. Porque estava à frente de mais para o seu tempo.
Mas foi indubitavelmente uma figura importante para estas ilhas. Amílcar Cabral nasceu na Guiné-Bissau mas cedo veio para Cabo Verde, de onde os pais eram naturais. Aqui completou a escola primária e depois o liceu, de onde seguiu para Lisboa para se licenciar em Agronomia. Diz quem o conheceu que foi sempre um excelente aluno.
Mas Iva não entende aquilo que para ela é quase desprezo com a que Amílcar Cabral é aqui tratado. É certo que lhe fizeram uma grande estátua aqui na Cidade da Praia, mas também é certo que só se lembram dela uma vez por ano, a cada 20 de Janeiro, para lhe pespegarem lá um ramo de flores.
“Ou Cabral é uma figura nacional ou se acaba com esta brincadeira”, diz Iva, historiadora, garantindo que Cabo Verde parece que se envergonha do seu herói, mais conhecido, estudado e apreciado noutros países.
Mas ela sabe de cor a vida de Amílcar Cabral. Na conversa que tivemos lembrou por exemplo as amizades que ele fez aí em Lisboa, como com Marcelino dos Santos (um dos fundadores da Frelimo, em Moçambique), Mário Andrade ou Agostinho Neto (angolanos, ambos dirigentes do MPLA), fundamentais para o amadurecimento do seu pensamento.
Ou lembrou a importância dos livros de Jorge Amado e os poemas de Pablo Neruda, que moldaram a forma de pensar de Amílcar Cabral, um homem que defendia uma independência suave das colónias portuguesas e que gostava muito dos portugueses e de Lisboa.
“Cabral não era um homem belicista, foi para a luta armada por não ter outra saída,  sempre tentando derramar o mínimo de sangue e criar, ao mesmo tempo, uma nova vida e nova sociedade nas zonas libertadas”, afiançou esta mulher, que 35 anos depois diz acreditar que esta nova forma de pensar está também na base do assassinato de Cabral. Porque “ia contra os interesses de muita gente”, porque “estava à frente do seu tempo”, porque defendia que quem vai lutar pela independência de um país o faz a pensar no progresso do povo e não para “tomar a casa do administrador”.
E é este homem que aqui, diz esta mulher, parece estar esquecido, ainda que todos lhe chamem cá “o pai da nação”.
“Tenho medo que Cabral se torne um mito”, disse-me ela, acrescentando depois, sempre no meio de muitos gestos expressivos: “não dando formação às pessoas sobre quem é Cabral, sobre o seu pensamento, Cabral vai tornar-se esse mito, porque a juventude precisa de heróis e de mitos e aqui o único que a pode juntar é Cabral, porque foi uma pessoa que se sacrificou, o cabo-verdiano mais conhecido no mundo. E isso para os jovens é atractivo, porque lutou, porque se sacrificou”.
Lendo a história também se vê o futuro. E é isso que Iva prevê. Porque o presente, esse, ela já conhece. Como hoje. Quando mais uma vez lá foi pôr um ramo de flores na estátua do pai.

Um abraço
Fernando Peixeiro


1 Response to “Em nome do pai”

  1. 1 meireles

    O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

    Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 02 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.

    Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
    Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
    Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
    Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
    Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola).
    A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
    Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
    Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
    Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
    De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.

    Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz e esposa Maria Eugénia Cruz , Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos e esposa Maria Judith dos Santos e Maria da Conceição Boavida que em conjunto com a esposa do Dr Hugo José Azancot de Menezes a Maria de La Salette Guerra de Menezes criam o primeiro núcleo da OMA ( fundada a organização das mulheres angolanas ) sendo cinco as fundadoras da OMA ( Ruth Lara ,Maria de La Salete Guerra de Menezes ,Maria da Conceição Boavida ( esposa do Dr Américo Boavida), Maria Judith dos Santos (esposa de um dos fundadores do M.P.L.A Dr Eduardo dos Santos) ,Helena Trovoada (esposa de Miguel Trovoada antigo presidente de São Tomé e Príncipe).
    A Maria De La Salette como militante participa em diversas actividades da OMA e em sua casa aloja a Diolinda Rodrigues de Almeida e Matias Rodrigues Miguéis .

    Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
    Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
    De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
    Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.

    A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldville ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).

    Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês.
    Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters e a esposa tornando-se locutora da rádio GHANA para emissões em língua portuguesa.

    Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.

    Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
    Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade. Estas emissões são ouvidas por todos cantos de Angola.

    Em 1966´é criada a CLSTP (Comité de libertação de São Tomé e Príncipe ),sendo Hugo um dos fundadores.

    Neste mesmo ano dá-se o golpe de estado, e Nkwme Nkruma é deposto. Nesta sequência ,Hugo de Menezes como representante dos interesses do MPLA em Accra ,exilou-se na embaixada de Cuba com ordem de Fidel Castro. Com o golpe de estado, as representações diplomáticas que praticavam uma política favorável a Nkwme Nkruma são obrigadas a abandonar Ghana .Nesta sequência , Hugo foge com a família para o Togo.
    Em 1967 Dr Hugo José Azancot parte com esposa para a república popular do Congo - Dolisie onde ambos leccionam no Internato de 4 de Fevereiro e dão apoio aos guerrilheiros das bases em especial á Base Augusto Ngangula ,trabalhando paralelamente para o estado Congolês para poder custear as despesas familhares para que seu esposo tivesse uma disponibilidade total no M.P.L.A sem qualquer remuneração.

    Em 1968,Agostinho Neto actual presidente do MPLA convida-o a regressar para o movimento no Congo Brazzaville como médico da segunda região militar: Dirige o SAM e dá assistência médica a todos os militantes que vivem a aquela zona. Acompanha os guerrilheiros nas suas bases ,no interior do território Angolano, onde é alcunhado “ CALA a BOCA” por atravessar essa zona considerada perigosa sempre em silêncio.

    Hugo de Menezes colabora na abertura do primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário em Dolisie ,onde ele e sua esposa dão aulas.

    Saturado dos conflitos internos no MPLA ,aliado a difícil e prolongada vida de sobrevivência ,em 1972 parte para Brazzaville.

    Em 1973,descontente com a situação no MPLA e a falta de democraticidade interna ,foi ,com os irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade , Gentil Viana e outros ,signatários do « Manifesto dos 19», que daria lugar a revolta activa. Neste mesmo ano, participa no congresso de Lusaka pela revolta activa.
    Em 1974 entra em Angola ,juntamente com Liceu Vieira Dias e Maria de Céu Carmo Reis ( Depois da chegada a Luanda a saída do aeroporto ,um grupo de pessoas organizadas apedrejou o Hugo de tal forma que foi necessário a intervenção do próprio Liceu Vieira Dias).

    Em 1977 é convidado para o cargo de director do hospital Maria Pia onde exerce durante alguns anos .

    Na década de 80 exerce o cargo de presidente da junta médica nacional ,dirige e elabora o primeiro simpósio nacional de remédios.

    Em 1992 participa na formação do PRD ( partido renovador democrático).
    Em 1997-1998 é diagnosticado cancro.

    A 11 de Maio de 2000 morre Azancot de Menezes, figura mítica da historia Angolana.

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