Caro amigo

Quando há dois dias estava sentado na sala de espera do aeroporto do Mindelo e chamaram os passageiros para a Cidade da Praia levantei-me de um salto e fui o primeiro a ir para a sala de embarque. Tentava livrar-me da nuvem de moscas que me envolvia e que estava já, escandalosamente, a dar nas vistas.
Tinha chegado havia pouco e sentava-me a descansar quando uma mosquinha me sobrevoou. Primeiro não dei importância. Mas sabes como é: uma mosca nunca vem só, nem aos pares, abanca com a família toda.
E foi assim. Em poucos segundos faziam-me voos rasantes, esvoaçavam à frente do meu nariz, pousavam descaradamente em qualquer lugar, quase indiferentes aos meus gestos, comedidos, envergonhados, enquanto não muito longe outros passageiros me olhavam de boca aberta, sem medo, que a minha estava, já se vê, bem fechada.
Algumas acompanharam-me simpaticamente na sala de espera, numa espécie de despedida a alguém que se quer muito, atraente, cheirosinho. Julgo que falaram com familiares na Praia que mal saí porta fora e lá estavam elas, muito parecidas, para mim iguais, às do Mindelo, a receberem-me de asas abertas, e eu a passar de cabeça baixa, acenando que não, não precisava de um táxi, nem de ajuda, mortinho por me meter no carro e chegar a casa, despir a roupa e meter-me na banheira.
Não vou aqui dizer-te que para variar não tinha água que isso já deves imaginar. Lavei-me como pude, janelas fechadas, roupa já toda enfiada na máquina. A cheirar a peixe fresco, a peixe seco, a suor, a poeira, a tudo o que pode fazer crescer água na boca a uma mosquinha.
Tinha acabado de chegar de três dias no Ilhéu Raso, entre as ilhas de Santa Luzia e de S. Nicolau, onde não há água doce e se dorme no chão, porque o ilhéu é deserto, à excepção das cagarras, das calhandras, dos lagartos, dos pardais, dos gansos patolas, dos corvos e dos rabos de junco.
Foram dias, e noites, devo dizer-te, maravilhosos. Onde comi sem talheres peixe grelhado acabado de pescar, me sentei numa falésia a ver a lua a brilhar no mar, rastejei de máquina fotográfica em punho a ver os ninhos das cagarras, ouvi histórias de pesca e pescadores, marinheiros, aventureiros, ambientalistas, viajantes, piratas e homens solitários. Histórias que me fizeram rir e outras que quase me levaram às lágrimas, sentado numa gruta, a fugir do sol, ou deitado em piscinas naturais, ao fim do dia, quando o sol se punha para os lados do Ilhéu Branco e de Santa Luzia.
Não tomei banho de água doce, quase não lavei os dentes ou a cara, limpei-me como pude, muitas vezes à t-shirt, e regressei a S. Vicente num bote, com um saco de peixe fresco teimosamente encostado a mim a maior parte da viagem.
Entendi por isso as moscas. E desculpei-as. Não são umas mosquinhas que me fazem arrepender desses dias e noites. Lavei-me e elas desistiram de mim. Mas eles ficarão comigo para sempre.

Um abraço

Fernando Peixeiro


4 Responses to “Eles ficarão comigo para sempre”

  1. 1 Monica

    quero ver essas fotos!

  2. 2 fernando peixeiro

    tenho muitas, mas não estou a conseguir juntar fotos. verás de certeza, fotos e filmes :)

  3. 3 Monica

    estou mesmo a imaginar-te… brinquedo novo…. é só disparar :-)

  4. 4 Ana Paula

    Tenho inveja das tuas histórias vividas.
    E eu aqui com “secura” de horizonte…Pé partido e céu de chumbo a vedar até uma, ainda que meio rastejante, incursão às varandas :/

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