E os cães deixaram de ladrar
Publicado por Fernando Peixeiro 20 Abril 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Podia falar-te da campanha eleitoral aqui, de mais um episódio das acusações entre os dois maiores partidos, de Jorge Santos, da oposição, acusar o governo de gastar 22 mil contos do erário público em campanha eleitoral. Mas não quero. Cansa-me a política. Deixa-me falar-te de Césaire.
A morte de Aimé Césaire, mais precisamente. Se calhar não se falou aí muito disso. Também é natural, tendo em conta que Césaire, poeta, celebrou a identidade do negro, a identidade africana.
Morreu esta semana, na Martinica, onde nascera há 94 anos. Aos 18 anos tinha ido estudar para Paris, onde fundara, no ano seguinte, o jornal “O Estudante Negro”, a meias com Leopold Senghor, esse mesmo, o antigo Presidente do Senegal.
Ao longo da vida escreveu sobre a negritude (aliás criou o termo), escreveu sobre a imposição dos pontos de vista dos brancos para com os negros, escreveu sobre o orgulho de ser negro e sobre a identidade dos africanos. Tudo coisas que, convenhamos, no princípio e meados do século passado, não deviam de ser bem vistas.
No livro de poemas “Cahier d’un Retour au Pays Natal” (Diário de um regresso ao país natal), já com quase trinta anos, escreveu Césaire: “A minha negritude não é uma torre ou uma catedral, ela mergulha na carne vermelha do solo”.
A negritude dele foi a de muitos outros mas foi ele, com Senghor e Léon-Gontran, que a trouxe ao mundo, para através da política mas também da literatura se insurgir contra o colonialismo e o racismo de França.
No ano passado foi homenageado pelo presidente francês, este homem, poeta, pensador, ensaísta e historiador, autor do livro “E os cães deixaram de ladrar”.
Não sei se deixaram, no dia da sua morte. Se não deixaram deviam ter deixado. Eu, pela minha parte, deixo-lhe aqui também uma homenagem. Nicolas Sarkozy pôde, porque é que eu não posso?
Um abraço
Fernando Peixeiro



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