Caro amigo
Quando telefonámos ao tio para ir lá fazer uma entrevista ele perguntou porque não íamos a um domingo, que sempre almoçávamos e tínhamos mais tempo para conversar. Recusámos porque para domingo ainda faltava muito e tínhamos pressa. Agora acho que devia ter passado um domingo com o tio.
O “tio” é Honório Fragata, um angolano há 30 anos radicado em Cabo Verde, em tempos alcoólico, metido no historietas e cambalachos, hoje um homem baixinho, a atirar para o forte, conversador e uma boa, muito boa pessoa.
Depois de se ter curado dos maus vícios começou a pensar que podia começar ele mesmo a fazer também alguma coisa pelos outros. E se bem o pensou melhor o fez, porque às vezes vale mais uma grande vontade do que um punhado de dinheiro. Mexeu-se, falou com pessoas e à falta de melhor montou duas tendas aqui no interior de Santiago, o primeiro centro de apoio a toxicodependentes que Cabo Verde viu.
No início, contou, tinha “um camping gás e panelas” e o apoio mensal de cerca de 100 euros de uma igreja brasileira, ao qual se juntou depois mais outro tanto em alimentos, por parte da Cruz Vermelha de Cabo Verde.
Hoje Honório Fragata é o tio de 35 jovens, do sexo masculino, entre 12 e 60 anos, mas já chegou a ter ali mais de 60 ao mesmo tempo. As tendas, essas, também se multiplicaram e são cerca de uma dúzia, tendas do exército, com capacidade para acolher até quatro pessoas.
As tendas El Shaddai, assim se chamam, são conhecidas no país inteiro, como o tio Honório. E este homem já não se limita a acolher toxicodependentes ou alcoólicos, agora tem também com ele seropositivos e ultimamente órfãos de pais com Sida. Basicamente recebe de braços abertos aqueles que, por alguma razão, ou várias, ninguém quer.
Estive lá numa manhã de chuva miudinha. Aguardei pelo tio no telheiro de uma casa de tijolo, entretendo-me a brincar com um cão enquanto via, do lado direito, quatro jovens a preparar o almoço numa grande panela ao lume. A fogueira servia também para, de vez em quando, aquecerem as mãos.
Depois Honório Fragata chegou, mostrou-me a única casa a sério e as tendas, a oficina, o ginásio, a horta, a carpintaria e o centro de convívio que serve também de igreja e que é uma espécie de coreto, com telhado de palha, no meio do acampamento.
Falou muito. Contou da sua vida, da vida do jovem que não o largava, meio criança, deficiente mental, que encontrou pelas ruas perdido de bêbado, porque havia sempre alguém que o embebedava para se rir dos disparates que um jovem deficiente e bêbado era capaz de fazer. Contou dos primeiros tempos, de quando tinha apenas ali dois toxicodependentes, dos muitos que por ali já passaram, dos que se recuperaram, que estudaram, que saíram do país, e que ainda hoje lhe escrevem.
“Neste momento tenho alguns que até já estão fora a estudar. Temos outros que ainda frequentam o ensino secundário. A disciplina é fundamental. Aqui sabem que as regras são para ser cumpridas. Sabem que não são obrigados a estar aqui, mas casos de violência ou uso de drogas aqui dentro na segunda vez a pessoa é expulsa”.
Honório não tem nenhum método especial de cura. As tendas são abertas, construídas em espaço aberto, entra quem quer, sai quem o deseja. Trabalha-se, estuda-se, reza-se, convive-se, pratica-se desporto. Em três meses, se quiserem, sairão dali para uma vida melhor.
Até agora, pelas contas do tio, passaram por ali cerca de 700 pessoas. Desses, Honório diz que 35 por cento conseguiu deixar as drogas.
“Mas mesmo que fosse apenas um já teria valido a pena”. Di-lo com tanta sinceridade, com tanta força, que eu acredito. Um domingo destes telefono ao tio.
Um abraço
Fernando Peixeiro


história fantástica e bela! são destas que nos fazem sentir que há tanto que fazer e por vezes com tão “pouco”