E o sofrimento ainda anda por lá
Publicado por Fernando Peixeiro 11 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Escrevo-te no dia em que a ministra da Cultura de Portugal, Isabel Pires de Lima, inicia uma visita de três dias aqui a Cabo Verde. Além de ir à Cidade Velha, a primeira cidade das ilhas, a ministra vai visitar o Campo de Concentração do Tarrafal, o nome de um local que ainda hoje estremece o coração de muitos e que agora está praticamente abandonado. Há memórias, que mesmo más, deviam preservar-se.
Já te falei desse local, já te contei como se castigavam os presos mais relapsos, num casinhoto ao sol, onde eles coziam em banho-maria. Faz impressão, juro-te, visitar aquele lugar e imaginar o sofrimento que por ali ainda anda, entre muros e restos de arame farpado. Mas também faz que autoridades cabo-verdianas e portuguesas o votem ao abandono. Devia fazer-se qualquer coisa, digo-te eu.
Mas não só eu. Por isso não resisto a transcrever-te uma passagem de um livro de Miguel Sousa Tavares, “Sul”, sobre o Tarrafal. São memórias de 1995, há 12 anos, mas no entanto… ora vê:
“Eis o sinal mais evidente do abandono de Portugal. Celebramos com estátuas e monumentos os descobridores e os combatentes – como é nosso dever. Mas como celebramos os que resistiram quando todos os outros se calavam de medo, os que passaram e que morreram naquela infame prisão política do Tarrafal?
Ali, sentimos duplamente a vergonha por Portugal. Vergonha pelo país e pelo homem (que quase 40 por cento dos portugueses, a fazer fé nas sondagens, afirmam ainda ter sido um bom governante e um bom português) que mandou construir o campo do Tarrafal para nele encerrar, em condições revoltantes, os que cometiam o crime de ter outras ideias para Portugal.
E vergonha por um país que, vinte anos depois da libertação e depois de duas visitas de presidentes da República, ainda não arranjou dinheiro nem vontade para honrar, nem que fosse com uma simples placa no local, a memória dos portugueses – e dos angolanos e outros desterrados políticos do império – que ali deixaram o melhor das suas vidas, separados do mundo por um fosso e uma armação de arame farpado e uma paisagem desértica a perder de vista.”
Há 12 anos, caro amigo. Posso dizer-te que depois disso já houve outras visitas presidenciais. E até uma votação sobre quem foi o melhor português de sempre que acabou como acabou.
E que mudou? O Tarrafal destrói-se lentamente, em termos físicos. Mas não na memória dos homens. E o sofrimento, garanto-te, ainda por lá anda.
Hoje, se me permites, mando um abraço partilhado
Fernando Peixeiro



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