E o Sal ali ao lado

Caro amigo

Falares da questão do aeroporto faz-me lembrar a companhia aérea de Cabo Verde. Sabes quanto custa uma viagem de ida e volta Cidade da Praia-Lisboa? Paguei por uma quase 800 euros. O mesmo que paguei no ano passado para, por exemplo, ir a Jacarta, também ida e volta. Mas não é só os TACV. Tenho de contar para pensares bem, no caso de te passarem pela cabeça uma férias aqui.
Num país onde um ordenado de 70 contos já é considerado um bom salário, o que equivale a quase 700 euros, os preços dos produtos e serviços são por norma o dobro dos que podes encontrar aí. As viagens de avião são um bom exemplo do que tens de penar por terras de Cabo Verde. Ir da ilha de Santiago à ilha do Sal custa-te quase 200 euros. Menos de uma hora de viagem. E 200 euros são o ordenado mensal de muita, mas muita gente por aqui. E o Sal ali ao lado.
Depois tens outra “grande” companhia, monopolista e especializada em esbulhar-te os trocos. Só para que tenhas uma ideia, paguei há dois meses à Cabo Verde Telecom qualquer coisa como 900 euros. Por um mês de comunicações. Para teres ADSL pagas mais de 100 euros, com direito a um gigabyte de tráfego por mês. Em Portugal pagava 34 euros, com tráfego ilimitado.
Como aqui nas ilhas não se produz quase nada, tudo o que se consome é importado. Aqui, caro amigo, no Verão um quilo de batatas sobe acima dos 300 escudos. E 300 escudos cabo-verdianos são precisamente 2,7 euros, quase 600 escudos antigos de Portugal. Ora eu não acredito que um quilo de batatas aí custe alguma vez 600 escudos.
Na verdade, para um comprador português os preços começam por ser enganadores, pelo facto de se apresentarem em escudos. Se encontras uma garrafa de vinho tinto do Alentejo por 650 escudos parece-te justo à primeira vista. Mas se pensares que os 650 escudos daqui equivalem a 1.300 escudos em Portugal percebes que estás a pagar o dobro.
Mas o que esta semana me deixou fascinado foi ter pago mais de 800 euros para ir a Lisboa, em aviões para os quais tens de comprar bilhete com meses de antecedência porque andam sempre cheios, e saber que os Transportes Aéreos Cabo-verdianos tiveram no ano passado um dos piores, em termos de ganhos, dos últimos quatro. E andam eles a despedir pessoas, a fechar lojas, a cortar em tudo quanto é custo.
“No primeiro trimestre de 2007 há evidências de sinais de retoma em termos de melhoria, mas a fragilidade financeira da companhia exige um esforço colectivo em direcção a uma sã gestão da tesouraria”. São palavras da empresa. Não as ouviste e leste já dezenas de vezes? Não te soam familiares?
Afinal para quem andas tu a pagar 800 euros para ir ali a Lisboa? E para quem andas tu a pagar 170 euros para ir ao Sal? Nisto, como em tantas coisas na vida, que bom que é a concorrência.
Por mim, estou a pensar poupar dinheiro. Vou comprar um avião.

Um abraço com os pés no chão
Fernando Peixeiro


0 Responses to “E o Sal ali ao lado”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS