E o mar ali em frente
Publicado por Fernando Peixeiro 23 Março 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Lembras-te de Lisboa há uns anos? Quando não havia esplanadas junto ao rio? Quando nem sequer vias o rio se não tivesses a sorte de viver numa daquelas casas na encosta da cidade? A Praia é assim, de costas para o mar. O Mindelo é a Lisboa de hoje, aberto não ao rio mas ao mar. A cidade bonita. E se calhar graças, imagina, à Praia.
É a primeira coisa que percebes mal chegas à primeira cidade da ilha de S. Vicente, aqui em Cabo Verde. É certo que as pessoas não vão à praia ali em frente da marginal, onde parece, isso sim, ser um lavadouro de cães, porque não passei lá vez nenhuma que não visse uma alminha a lavar um cão. Mas a poucos centenas de metros está a Lajinha, a praia do Mindelo, que Germano de Almeida já homenageou num dos seus livros.
Mas a cidade vive, sem dúvida, aberta ao mar. Sendo mais pequena do que a Praia é também mais plana, mais limpa e mais arrumada.
Estás no Mindelo e poderias estar numa vila de província aí de Portugal. Calma, pouco trânsito, casas baixinhas, ruas asfaltadas e limpas, paredes caiadas ou pintadas de cores vivas, tão diferente das casas eternamente por acabar e por pintar da Praia, das ruas de empedrado e esburacadas, do lixo acumulado e das praias abandonadas, com acessos vergonhosos.
No centro da capital há uma enorme praia abandonada, onde ninguém sequer toma banho, ao que parece porque está poluída, ou porque lhe deixaram morrer ali uns quantos barcos e o fundo é uma armadilha constante. Não sei se é verdade, foi o que me disseram. Mas é verdade, porque vejo, que ninguém ali vai sequer ao areal, a não ser quando se organizam os festivais de música. Nem para lavar os cães.
Depois no Mindelo há jardins cuidados, onde as pessoas se sentam e passeiam, mesmo de noite, sem medo de assaltos, onde há casas de banho públicas e asseadas, onde não se partem os bancos ou as lâmpadas de iluminação exterior. No Mindelo há luz em todas as ruas, na Praia em poucas, para já não falar dos cortes constantes, como ainda hoje.
Vê-se que os mindelenses estimam a sua cidade, que vivem a um ritmo mais calmo, mais jovial e mais alegre, que escutam música, que vão ao teatro, que convivem nas noites de sexta-feira e sábado até quase de manhã, e que aos domingos, durante o dia, deixam a sua cidade entregue aos turistas.
Mas pela noitinha, mesmo aos domingos e feriados, voltam à rua. Para ouvir a banda, que não falha no coreto, para passear, para conversar num banco de jardim, para dizer boa-noite a quem passa ou apenas sorrir.
Fiquei com a ideia, estes dias, que as pessoas são mais felizes no Mindelo. Eu também o fui. Mas fiquei com a ideia também que gostei mais da cidade por viver na Praia. Se calhar, se calhar mesmo, vivendo eu numa vila aí, dessas bem bonitas e arrumadas, que as temos, chegaria aqui e… ok… acharia bonita a cidade, mas não assim tão boniiiiita.
É irónico. Mas parece-me que a Praia, a capital, onde se concentra a maior parte dos quadros e do dinheiro deste país, que sempre olhou para o Mindelo, há meio século a cidade mais próspera, como uma rival, é a Praia, dizia eu, que faz o Mindelo tão bonito.
Um abraço de boa Páscoa
Fernando Peixeiro



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