É Natal, porrada para todos

Caro amigo,

venho hoje falar-te desta grande democracia que é Cabo Verde. Temos muito que aprender, em Portugal e noutros países da Europa, com este pequeno país. Aqui, como aí, como em todo o mundo, há assaltos. Mas não vi em mais nenhum país do mundo tamanha igualdade: tanto é assaltado um pacato cidadão como um polícia, um juiz ou um deputado. Não é triste, pois não?

É triste que as pessoas sejam assaltadas, devemos estar de acordo, mas porque é que têm de ser sempre os mesmos? Aqui não, vai tudo a eito. Na minha terra costuma dizer-se que “ou há moralidade ou comem todos”, eu acho que a coisa devia ser mais “há moralidade porque comem todos”. E comem o quê? Porrada! Pois não se está logo a ver.
É isso que me deixa alegre. É que se comerem todos para a próxima pode ser que a polícia leve mais a sério as queixas dos desgraçados que são esmurrados em cada esquina, que os juízes deixem de mandar os bandidos para a rua, quando são apanhados, e que os deputados forcem o governo a tomar medidas para evitar tanta ladroagem.
Esta semana foi o comandante adjunto da Esquadra do Palmarejo, aqui no bairro onde moro. Tchitchico estava a chegar a casa na madrugada de domingo, eram para aí umas três da manhã, quando dois “malucos” se aproximaram dele e sem grandes palavras começaram logo a aviar-lhe.
Tchitchico sacou da arma mas eles eram dois e roubaram-lhe a pistola e aproveitaram para lhe dar umas coronhadas, deixando-o para ali, sem a carteira mas com uma brecha na cabeça que precisou de 16 pontos.
Francisco Viera (nome verdadeiro) não acha que o assalto foi qualquer tipo de vingança. Não senhor! Foi um típico, banal, normal, inofensivo e saudável assalto, académico, clássico, sem espinhas, clarinho, padronizado, por parte de jovens que em vez de trabalhar ficam à espera de apanhar alguém a jeito para lhe dar umas porradas e ficar em segundos com aquilo que os outros demoram semanas, ou meses, a ganhar.
Aliás, até adianta outro pormenor o polícia. Agora que a quadra natalícia se aproxima… Pois está claro! os ladrões também têm família, têm de comprar as prendas de Natal, o peru…
E porque o Natal quando nasce é para todos, recentemente a deputada Joana Rosa também foi aliviada da sua carteira e há bem poucos dias a juíza Fátima Coronel, tal como a deputada e o polícia aqui no Palmarejo, viu chegarem-se uns jovens à frente, e à frente do supermercado onde ia fazer compras ao fim da tarde, que com bons modos lhe sacaram o dinheiro. E digo bons modos porque as duas mulheres não precisaram de ir ao hospital levar pontos.
Agora diz-me lá tu. Isto não é democracia? Já deste por o Procurador-geral da República levar, aí, uns tiros no Porto? Ou por um juiz ser assaltado à porta do supermercado? Ou um polícia levar umas murraças depois de um bando de jovens lhe roubar a massa toda? Não pois não? São sempre os mesmos! Taxistas, porteiros de discotecas, senhoras comuns que vão a andar na rua, vindas das compras, e passa um puto de motorizada, jovens que estão a namorar num sítio escuro, raparigas que vão entrar para o Metro, rapazes que estão a falar ao telemóvel.
É Natal e todos devemos contribuir. Assalte-se o primeiro-ministro, roube-se o telemóvel do presidente da Assembleia da República, a farda de um polícia, a toga de um juiz, o cabaz de natal do presidente do maior partido da oposição, o peru do ministro da administração interna…
Ou há moralidade ou comem todos.

Um, por enquanto, incólume abraço
Fernando Peixeiro


1 Response to “É Natal, porrada para todos”

  1. 1 Guinevere

    Gosto disso aí. Igualdade para todos.
    E deixo esta achega amigos: quando eles aí roubam juízes, deputdos e polícias não estarão a roubar quem já os roubou primeiro? E como se diz por cá… Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão.
    Talvez por isso vêem todos cá para fora.
    Beijos amigos e de saudades

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