Caro amigo

Há uns anos dormi uma noite nas margens do lago Naivasha, no Quénia, onde ao fim do dia pude admirar o espectáculo que é a saída dos hipopótamos para a janta, o que ainda hoje me dá que pensar. Não é que aqueles monstros passam o dia envergonhados debaixo de água e só vêm à superfície ao fim do dia, todos ao mesmo tempo, para nadar para terra e comer erva a noite toda?
Há uns anos também dormi umas noites em Timor-Leste, em Dili principalmente mas também numa casa encima de uma árvore, em Laga, em Suai ou Lospalos. Que tem uma coisa a ver com a outra? Perguntarás.
Naivasha, Bogória e Baringo são três lagos que fazem do Quénia um país ainda mais bonito. Devias ver o céu encher-se de cor-de-rosa quando milhares de flamingos levantam voo, a fazer lembrar as imagens do filme África Minha. Só por isso já valeria a pena dar lá um salto.
Embora Nairobi seja uma cidade feia, insegura, a única onde tive a honra de dormir num quarto guardado por um segurança de metralhadora em punho, o interior do Quénia é tão bonito como a viagem de balão que se faz antes de amanhecer, para ver a vida selvagem a começar o dia, as hienas a beber água, as leoas a perseguir uma manada de gnus e estes correndo em ziguezague, seguindo o líder, vistos do alto como o ondular de uma serpente negra a avançar na savana.
E Timor-Leste? Guardo também gratas recordações da metade de ilha, da hospitalidade do povo, da simpatia do padre de Laga, português, que me deu para dormir uma casa no topo de uma árvore, para escapar dos mosquitos, a única cama onde tive também a honra de dormir em mais de um mês que, na altura, levava do então território gerido pelas Nações Unidas.
Tutuala e a ilha de Jaco, pois então, os pescadores por ali e o peixe que assavam depois, Lospalos, Bobonaro, Maliana, Suai, as praias, as montanhas e as pessoas, sempre as pessoas.
Vêm estas lembranças a propósito do fim-de-semana. Domingo morreu o antigo presidente indonésio Suharto, que mandou em 1975 anexar a na altura ainda colónia portuguesa de Timor-Leste
E porque o antigo ditador está morto chegou a hora de o embaixador da Indonésia em Lisboa e colaborador próximo de Suharto dizer que o homem foi pressionado pelos americanos a invadir Timor, coisa que até nem queria, nem a mortandade que se seguiu nos anos seguintes, pois com certeza.
A decisão na verdade, sugere agora, foi tomada pelo antigo Presidente norte-americano Gerald Ford e pelo seu secretário de Estado Heny Kissinger. Os resultados foram os que a história conta, incluindo a quase total destruição da ilha em 1999.
Também no fim-de-semana continuaram os confrontos no Quénia, onde já morreram mais de 800 pessoas na sequência da onda de contestação às eleições presidenciais de 27 de Dezembro.
Domingo, nas margens do Naivasha, o que se elevou no ar não foram os flamingos mas as ondas de fumo, das casas onde morreram 14 pessoas, queimadas vivas, e onde nos últimos dias outras 100 também já perderam a vida.
Num e noutro lugar foi a política a culpada. Mas como a política é um conceito foram aqueles que a corporizam os culpados. Nos últimos 100 anos devem ter sido eles os responsáveis pelas maiores mortandades mundiais.
É por isso, caro amigo, que quando me contas a história do homem de Vila Real, me falas da anarquia, do descontrole e de gente insane em cargos de responsabilidade partilho contigo dessas angústias.
Os políticos são como o colesterol. É necessário, mas se os deixamos descontrolar-se dá cabo de nós. E descontrola-se tão facilmente o colesterol.

Um solidário abraço

Fernando Peixeiro


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