Caro amigo

Já me tinham chegado aqui as palavras do ministro Mário Lino. Fiquei a saber porque é que Cabo Verde me é simpático: geograficamente e em termos de população é um deserto, como a margem sul de Portugal, a minha margem afectiva e familiar. Para Mário Lino Cabo Verde nem deve existir: são só 450 mil habitantes. Só faltam mesmo os camelos…
Os políticos devem ser das espécies mais engraçadas do mundo. E só não são mais porque por detrás de cada piadola, de cada graçola, estão quase sempre medidas que nos vão ao bolso. E depois a gente ri-se e eles vão enchendo os seus. E não duvido que vão, porque ao contrário não estariam lá.
Aqui também há discursos engraçados, às vezes engraçados por não dizerem nada, outras pelas palavras que se usam. Já me tenho rido à socapa em conferências de imprensa ou apresentações de projectos, e dado sentidas gargalhadas com os debates parlamentares.
Prometo-te caro amigo, estar atento e a partir de agora, ciclicamente, reproduzir-te algumas pérolas do que por aqui se diz publicamente.
Mas não só os cabo-verdianos. Na semana passada um alto responsável da União Europeia, a propósito de um encontro com a governação de Cabo Verde sobre emigração, resumiu assim a coisa: “Precisamos de encontrar uma nova solução, porque é um grande problema e muito complexo, que será o grande problema deste século. Cabo verde tem uma política muito honesta neste aspecto. Cabo Verde é um parceiro importante na União Europeia”. Ou seja, depois de dois dias de reunião o que se conclui é que é preciso encontrar soluções. Então o que estiveram a fazer?
Bem… o ministro dos Negócios Estrangeiros respondeu: “A primeira missão não vai permitir discutir questões específicas, não e o mandato da missão, o objectivo é abrir o diálogo sobre a problemática das migrações”. Pois claro! Uma grande delegação, dois dias na Praia, para abrir o diálogo.
Há tempos, no Instituto Piaget eram apresentados os resultados da segunda fase de escavações, de uma semana, na Cidade Velha de Santiago, candidata a património mundial. Foi “um singelo mas significativo evento científico que certamente ficará gravado nos anais da história de Cabo Verde, na sua caminhada vangloriosa ao lugar que a Cidade Velha merece”, disse no início o Instituto do Património. Esfreguei as mãos. Tinha notícia? Puro engano, os resultados nem mereciam uma linha num jornal camarário.
Aqui, como aí, cultiva-se a arte de bem falar e não dizer nada. Há tempos perguntámos à ministra Sara Lopes sobre um alegado terrorista que estava preso em Cabo Verde. Se confirmava, de que era acusado, quem era, de onde vinha, onde estava preso, quando iria a julgamento, se seria extraditado.
A ministra respondeu assim: “ O governo o que tem a fazer é agir, defender a segurança do país, garantir que Cabo Verde continua a ser um país seguro. Cabo verde tem a noção das ameaças que um país aberto pode estar a correr neste momento”… Políticos meu amigo!
Jorge Santos, líder da oposição, classificava em Janeiro os encontros mensais com o primeiro-ministro um “momento normal num Estado de direito democrático”. No final do segundo encontro mensal disse que nos próximos se iriam discutir questões de política externa. E o primeiro-ministro, José Maria Neves, garantia na mesma altura que esses encontros mensais com a oposição iriam continuar, sempre na última semana.
Estamos no final de Maio e nunca mais se encontraram.
Por isso te digo, os políticos são muito engraçados. E depois querem que a gente os leve a sério.

Um sério abraço
Fernando Peixeiro


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