Caro amigo,

tenho para mim que, teoricamente, as melhores democracias são as das ilhas. Numa ilha o que manda está ali, à mão de semear, não tem para onde fugir quando faz asneira da grossa, por mais que tente não consegue evitar os olhares acusadores dos contribuintes quando compra um carrito novo em vez de arranjar a estrada toda esburacada,  por mais que fuja há sempre pela frente um cidadão empenhado na democracia participativa pronto para lhe cobrar uma promessa qualquer, por mais que se esconda toda a gente sabe onde ele mora.

A propósito da tua carta pensei nisso em relação a Cabo Verde. Na ilha de Santiago, mesmo assim a maior de todas, é inevitável essa aproximação entre o que manda e o que é mandado. Nem em Portugal, que é um país pequeno, é tão normal ires a correr na praia e ao teu lado estar o primeiro-ministro, ou ires tomar um café e na mesa ao lado estar o presidente da Assembleia, ou ires ao supermercado e na bicha para pagar, mesmo atrás de ti, o ministro da Educação, ou estares numa esplanada de um hotel e a dançar a poucos metros poderes ver o ministro da Defesa.
Num destes sábados em que não há nada para fazer e o calor convida para um recanto à sombra, a comer peixe grelhado e a beber um bom vinho tinto, dei por mim à mesma mesa que um ex-ministro da Justiça, um ex-procurador-Geral da República, dois actuais procuradores-gerais e um presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Entre outros, que me lembre lá estava também o chefe de segurança do aeroporto de São Tomé.
Pois. Sendo o almoço em Cabo Verde, todas essas individualidades eram de São Tomé. Mas para o caso tanto faz. Tenho a certeza de que se fossem de Cabo Verde a tarde seria de igual modo bem passada.
Para veres, o almoço começou pelas 13:00 e até às 19:00 ninguém arredou pé, mesmo para um empresário que passou a tarde a queixar-se de que tinha outro almoço e que tinha de se ir embora. Ele foi, mas depois de comer uma bela sopa de peixe, pelas sete da tarde, agora sim pronto para um almocito para os lados de um bairro da periferia da Cidade da Praia.
Aqui é normal. Peixe grelhado, cervejas e vinho e uma viola. Nestas coisas há sempre quem saiba tocar alguma coisa e há sempre quem saiba umas canções. E se o vinho dá uma ajuda tu nem dás por passar a tarde, desvanecido pelo calor, aconchegado pelo álcool, que começa por te subir à cabeça e depois, malandro, se aloja todo nas pernas, a impedir que tentes sequer um simples passinho de dança.
Começa-se com músicas de Cabo Verde, vamos até São Tomé, damos um saltinho ao Brasil, outro a Portugal, regressamos a Cabo Verde. E quando o reportório parece ter-se esgotado alguém se lembra, por exemplo um ex-ministro, confesso que já nem sei quem, das músicas que os obrigavam a cantar, quando jovens, da mocidade portuguesa, tempos do ao que parece em Portugal tão saudoso Estado Novo.
Lembram-se ainda de cor estas pessoas dos hinos dos tempos de Salazar. Cantam-se, pois então. E a conversa acaba com eles a recitarem de cor onde nascem, por onde passam e onde desaguam os principais rios de Portugal. E as linhas de caminho de ferro? Na ponta da língua. Lembro-me também eu de ter “empinado”, na primária, os rios e os caminhos-de-ferro de Angola e Moçambique.
Depois dessa tarde tão bonita fiquei a pensar que em Portugal não podia acontecer isto. Será das ilhas? Ou será nas pessoas? Ou estará a diferença na viola? Pelo sim pelo não, vou comprar uma quando aí for, e aconselho-te a que faças o mesmo. Pode ser que aos poucos façamos desse um país melhor.

Um abraço cheio de ritmo.

Fernando Peixeiro