Dois homens e uma manhã
Publicado por Fernando Peixeiro 14 Maio 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Não é que esteja chateado, nem triste, nem sequer bêbado. Também não me vou levantar às quatro da manhã. É só uma questão de clima mesmo. Hoje estou cansado e vou direitinho dormir. Tive um dia movimentado, por aí à procura dos candidatos a autarca, que pode parecer estranho mas são difíceis de encontrar. São como os polícias. Quando queremos um não o encontramos, quando não precisamos tropeçamos neles.
Esta manhã, ontem quando me estiveres a ler, é um exemplo. Levantei-me às oito e às nove estava eu prontinho para uma bela e quente manhã de campanha eleitoral. O alvo era a oposição, que supostamente começava pelas nove, mas a coisa adiou para as dez. Achada Grande de Trás. Boa! Às dez lá estava. Achada Grande de trás para a frente e nem uma bandeirinha do MpD. Andava por lá um carro do PAICV a debitar a música de campanha mas nem me aproximei que era cromo que já tinha.
Meia hora depois, de tanto andar por ali, Achava-me farto. Pela segunda vez liguei para a sede de campanha e garantiram-me que o homem estava lá, só não me disseram com que disfarce. Como sou espertinho pensei que talvez não fosse Achada Grande de Trás mas sim Achada Grande Frente. Entretanto já tinha ligado para outro candidato, que me garantiu que estava a caminho do cais de pesca, por sinal ali perto.
Bem, já que não há um faz-se a festa com o outro. Não achas? Lá fui eu em direcção ao porto mas quando passei pela frente da Achada achei melhor entrar. E que encontro eu? Um belo, fresquinho, luzidio, viçoso e alegre ajuntamento do MpD. Ali ao virar de uma esquina, no qual só faltava mesmo era o candidato a presidente de câmara, que estaria a chegar.
Mas e agora? Tinha o outro no cais!! Lá me meti no carro e cais com o gajo, à procura do homem da UCID, a imaginá-lo já nos braços das peixeiras, que o homem deve fazer furor aqui junto do mulherio, agora que andou a colar cartazes em tronco nu, a salientar os músculos, a fazer lembrar o Tarzan Taborda.
Eram onze da manhã. O sol apertava, e do Tarzan nem sombra. Eu por ali, em desespero, à espera do homem, e a imaginar que entretanto o outro, lá no alto, na Achada Grande, Frente, estaria no auge da coisa. Da campanha, entenda-se.
Virei costas ao mercado e lá trepei eu, à procura do outro, temendo que a manhã acabasse assim, inglória, sem nada, sem uma fotografia, sem um risco no meu caderninho. Mas não, desta vez tive sorte. Ele, o candidato, lá estava, encostado a uma árvore, ouvindo com ar aborrecido as queixas de um munícipe. Andei uma hora atrás dele, à frente, ao lado, pelo pó, ao som de batuque. E quando me cansei, quando me refugiei no fresquinho do ar condicionado do carro pensava que para acabar a manhã em beleza só mesmo um banho de escamas de peixe.
Achei que não, que me ia acontecer como na semana passada com o candidato do PAICV, que corri meia Vila Nova, outro bairro aqui da Praia, até o encontrar. Nessa altura, uma hora e meia depois do prometido, estava eu cansado e ele, o candidato, fresco que nem uma alface.
Mas hoje, ontem, tive sorte. No mercado lá andava ele, no meio das vendedoras, a distribuir papelinhos com as suas propostas. Pequenos, nem dão para enrolar peixe, deverão ter pensado algumas, com camisolas do MpD ou do PAICV. Embora isso seja o menos, porque uma tshirt é sempre uma tshirt, independente do que tem escrito.
Tive sorte, apesar de tudo. E teria mais se não fosse parvo. Porque nesta altura já devia saber que aquilo que dizem que começa às nove só começa na verdade lá pelas dez e meia.
E mais inteligente ainda seria se a esta hora que te escrevo estivesse mas é já a dormir. Aliás, comecei esta carta a dizer que hoje não te ia escrever nada. Ás vezes parece que tenho diarreias repentinas de escrita. Antes essas.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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