Doeu? Como é que te sentes?
Publicado por Fernando Peixeiro 13 Julho 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Como andas por aí muito caladinho, que nem sinais de fumo tenho de ti, estou a escrever-te só para deixar um desabafo. É sobre os jornalistas e a comunicação social. Eu acho que às vezes lhes deviam pagar só para eles estarem calados.
Quando a gente vê um belo jornalista aproximar-se lampeiro de um familiar ou amigo de alguém que morreu e perguntar-lhe de chofre: como é que se sente?, a vontade é mesmo essa: Olha, vai lá para casa, não abras essa boca nos próximos tempos que a gente paga-te o ordenado, mas só se prometeres que não te mexes muito. Nem pensas.
Imagina que eu era agora um empresário, que tinha construído depois de uma vida de trabalho uma fábrica de descasca de pinhão, que me tinha custado os olhos da cara, por felicidade só esses, e que aquilo me ardia tudo uma madrugada. E que depois vinhas tu, pela manhã, de microfone em punho, e me perguntavas como é que eu me sentia. Então não estarias a habilitar-te a uma resposta do género: sinto-me com uma enorme vontade de lhe encher a cara de murros?
Há perguntas que não se fazem e essa, “como é que se sente?”, deve ser daquelas que mais irrita e mais ofende em certas situações.
Um incêndio queima-te milhares de hectares de pinhal. Como é que se sente? Sinto-me quente, chamuscado, e você vai ficar com a cara a arder quando lha rebentar.
Um carjackinguista (profissional do carjacking, inventei eu agora) mata-te a mulher e ainda te rouba o carro. Como é que se sente? Sinto-me triste, o carro era novo.
Morreu-te um filho no Afeganistão, vítima de uma explosão amiga. Como é se sente? Sinto-me com vontade de ir ali comprar uma arma ao mercado de Sucupira, não saia daí que eu já cá venho.
És jogador profissional de futebol e marcas um golo na própria baliza numa final de um campeonato europeu. Como é que se sente? Vá à merda.
Estou para aqui a brincar mas a verdade é que há perguntas que não se fazem. Esta semana aconteceu aqui em Cabo Verde mais um daqueles casos marados, com uma criança de nove anos a ser violada por um rapaz, jovem, mas já com idade para ter juízo.
A televisão lá foi fazer a história, com grande destaque, até porque me parece que era “cacha” e mostrou a miúda no noticiário da noite. Era preciso porem assim a criança a contar os pormenores na primeira pessoa? A carinha triste da miúda a contar como é que o gajo lhe tapou a boca e mais isto e mais aquilo? E então perguntam à miúda: e doeu? Ah pois. E insistem. E doeu muito ou pouco? O que é que se responde a isto meu caro amigo? Naaaa, não doeu, foi pena foi o moço ter que se ir embora ao fim de meia hora porque tinha aí mais umas crianças para violar.
A sério, é que perguntas parvas merecem respostas ainda piores. E tu? Não achas? Não dizes nada? Como é que te sentes? Doeu?
Um abraço
Fernando Peixeiro



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