Caro amigo

Vem para cá. Estás convidado. Trás a família. Os amigos. Venham todos.
Quando se comemora o dia de Portugal, e pelas notícias que me chegam daí, achei que a melhor carta que te podia enviar é um convite. Quando isso aí se tornar insuportável, quando não tiveres gasolina, nada que comer, maneira de sair de casa, vem para cá que sempre se arranjará qualquer coisa. Só te peço que não venhas já hoje mas só depois do próximo fim-de-semana, que até lá já tenho a casa cheia de refugiados portugueses. No caso duas refugiadas, corajosas, ou parvas, que mesmo vendo as notícias daí teimam em regressar. Acho que, coitadas, apanharam sol a mais, por estes dias.
Mas portanto, a partir da próxima semana, tens cá uma casa às tuas ordens, isto se os aviões ainda voarem. E garanto-te que não estarás a mais porque os inteligentes e visionários portugueses que trocaram esse belo país por estes torrões secos são pouco mais ou menos mil. Qualquer coisa como 10 camiões, se metermos 100 em cada contentor.
É verdade que os dados oficiais indicam outras contas. O número de portugueses inscritos nos consulados de Cabo Verde ronda os 9.000, a maior parte, 6.500, na Cidade da Praia, e os restantes 2.500 no Mindelo, ilha de S. Vicente.
Mas atenção meu amigo, destes, a esmagadora maioria, mais de 8.000, são luso-cabo-verdianos. Ou seja, têm passaporte cabo-verdiano e português. Ou tinham. Como deves imaginar, a esta hora, dessa gente pelo menos metade já queimou o português, dois mil são agricultores e perderam-no quando estavam a semear milho, mil foram tomar banho na praia e esqueceram-se de o tirar do bolso. Depois 500 foram vendidos a desesperados analfabetos da Gambia, 400 andam nas mãos de crianças, a servir de cartuchinhos de calabaceira e os outros 100 foram metidos à socapa nos bolsos de turistas quando estavam a ser assaltados.
Restam então mil portugueses, não heróicos, porque esses são vocês, mas antes espertíssimos. Que aqui vivem amenamente, percorrendo se quiserem os 70 quilómetros de comprimento da ilha.
Trabalham na banca, na construção civil ou no ensino. São funcionários de representações oficiais e cooperantes mas também quadros de empresas portuguesas no país. São da Caixa Geral de Depósitos, Montepio Geral, BPN, BCI, Caixa Agrícola ou Banif. São da Cimpor, MSF, Armando Cunha, Monte Adriano, Opca ou Somague. São da PT ou da Lusófona, do Jean Piaget ou do Pestana, do Oásis ou do Salvador Caetano. São empresários ou professores, padeiros ou diplomatas, publicitários ou mecânicos. E são uma malta cheia de sorte de não estar aí. Dez camiões cheios de sorte. Um grande dia de Portugal, caro amigo. Sem ponta de cinismo Ih Ih Ih!!!

Fernando Peixeiro


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