Deus mandou-me um anjo
Publicado por Fernando Peixeiro 21 Junho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Deus anda a ler as nossas cartas. No mesmo dia em que me gabava de que em quase seis meses não tinha ainda ficado doente mandou-me uma diarreia fulminante, sem aviso, que me deixou tão cansado como se tivesse feito a meia maratona. E digo meia porque com a minha falta crónica de exercício não aguentava, por certo, uma maratona inteira. Mas, caro amigo, não o culpo. Antes de me enviar a doença já me tinha mandado um anjo.
As doenças intestinais são, ao que deves saber, o “calcanhar de Aquiles” de qualquer europeu que viaje para um país de África, para já não falar da malária, essa também provocada por um “inimigo” pequeno mas ainda assim visível a olho nu.
Aquele que me atacou ontem e hoje desconheço como me descobriu. Tenho, desde sempre, cuidado com saladas e alimentos crus, evito o gelo, evito comer em sítios nos quais não confio plenamente, evito até lavar os dentes com água da torneira.
Mas ontem, quando ao fim da tarde estava na Fortaleza de São Filipe, na Cidade Velha da ilha de Santiago, senti que tinha deixado aberta alguma porta e que ele tinha entrado. O dia estava ameno e o sol punha-se, sem vento, para os lados da ilha do Fogo. Mostrava a uma amiga a Fortaleza, erigida para defender a primeira cidade construída pelos portugueses por estas paragens, enquanto do vale fértil da vila chegavam os sons dos pássaros e, imagina, os balidos das ovelhas.
Um fim de tarde demasiado bonito para me sentir assim, tão cansado, com tanta vontade de me deitar nas lajes ainda mornas e ficar ali, de olhos fechados. Dormir ao som dos pássaros e das ovelhas e deixar que o vírus fizesse o seu trabalho.
E fez, claro! Passei a noite na casa de banho, passei o dia a caminho dela. Pelo caminho ia encontrando a Arlinda, o tal “anjo” de que te falei.
A Arlinda trabalha comigo desde o primeiro dia que aqui cheguei. Quase sinto vergonha de não te ter falado ainda dela. Além de excelente cozinheira é uma amiga, preocupada, bem-disposta, simpática, educada, trabalhadora, compreensiva, atenciosa e com um coração enorme.
Há tempos fomos os dois ao mercado e a diversas lojas aqui na Praia. Dia de compras. A Arlinda insistiu todo o tempo em caminhar atrás de mim em vez de, como eu achava normal, irmos conversando lado a lado. Cheguei a pensar que se tratava de algum complexo relacionado com a cor da pele ou coisa que o valha mas achei a ideia disparatada. Depois, já em casa, a Arlinda comentou assim comigo: não devia usar a carteira no bolso das calças, assim à vista, fico sempre cheia de medo que passe alguém e a roube.
Hoje foi assim também. Passou o dia a proteger-me. Primeiro fez um pequeno-almoço de pão torrado, depois um caldo de arroz e pelo caminho obrigou-me a beber um preparado que, disse-me, ia resolver a diarreia em três tempos.
Garantiu-me que funcionava e ficou na minha frente, a olhar para mim, rindo da minha cara de enjoado e certificando-se de que eu bebia tudo. “Vai passar, não se preocupe”! E eu bebi, claro está. Água fria, farinha, vinagre, açúcar e o mais que não me lembro.
Pois bem caro amigo, para encurtar conversa devo dizer-te que esta noite jantei uma deliciosa cachupa que a Arlinda fez e já deixei de lado o caldo de arroz.
Há 12 horas que não vou à casa de banho. Não sei se pela água com farinha e vinagre ou se muito simplesmente porque o vírus se distraiu e foi ele mesmo pela sanita abaixo. Mas garanto-te, caro amigo, que os cuidados e o carinho da Arlinda deram uma grande ajuda. E sabes? Quando às vezes penso que dentro de 18 meses regresso a Portugal sinto saudades da Arlinda!
Um afectuoso abraço
Fernando Peixeiro



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