Desculpem lá meus senhores
Publicado por Fernando Peixeiro 27 Abril 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
A esta hora que me estás a ler, se o fizeres pela manhã , a Praia é uma cidade a dormir, porque a festa, à hora que te escrevo, está para durar. Mas não é dela que te vou falar, antes do filme A ilha dos escravos. E por falar em Para durar…Imaginas que passei quatro horas naquela sala? Manoel de Oliveira ficaria roído de inveja não achas?
Mas desengana-te, desengane-se o senhor. O feito não foi de Francisco Manso, que teve muito mérito ontem à tarde sim mas pela calma que aparentou, o mesmo para João Neves, o adido cultural da embaixada de Portugal aqui na Praia, a calma em pessoa apesar de tudo o que se passou.
E o que se passou? Perguntarás tu. Pois bem… então escuta. O filme tinha antestreia marcada para sábado aqui na Praia, porque foi parcialmente rodado aqui e a história centra-se numa revolta de escravos, ocorrida nas ilhas há coisa de dois séculos. Devia começar às 18 horas e a essa hora lá estava eu à porta, rodeado da intelectualidade da capital, embaixadores, alguns três ministros… enfim… já imaginas.
Francisco Manso, o realizador, viajou de Lisboa com Ana Costa, a produtora, e com os actores Milton Gonçalves (do Brasil, deves conhecer das novelas), José Eduardo e Luís Évora. E, claro, o filme.
João Neves, aqui, tinha tratado do resto. O auditório nacional estava à espera do momento quase histórico e a sala iria encher-se, tanto mais que não há a porra de um único cinema neste país. E por isso estranhei o olhar carrancudo do João, ali de um lado para o outro, as pessoas a amontoarem-se à porta e o tempo a passar.
Às seis e meia da tarde aquilo que entretanto já sabia ficou público. O auditório tem dois projectores mas um passava a imagem e não o som e o outro teria som mas a imagem… desculpem lá meus senhores…
Os “desresponsáveis” do Centro tinham prometido que tudo estaria a funcionar a partir das quatro da tarde. Mas… pronto… é Cabo Verde meus senhores…
A sorte é que Francisco Manso, além das bobines, trouxe também um DVD com o filme. E o que fizeram foi ligar um leitor de DVD a um projector e… enfim… remediar a coisa. Não seria o mesmo mas daria para ver, explicou Francisco Manso.
Pelas sete da tarde, uma hora de atraso, lá começou o filme, com um som horrível mas ainda assim o suficiente para estarmos todos compenetrados. Mas só nos primeiros seis ou sete minutos. Começa a engasgar-se o filme, começam a gaguejar as personagens, começa a guinchar o som. E as luzes acendem-se.
É um problema com o vídeo, pois. Dão-se voltas e voltas, o realizador lá vai pedir desculpas, liga-se outro vídeo, apagam-se as luzes, o filme volta a morrer, acendem-se as luzes, os primeiros espectadores começam a ir embora, de fininho, outros aproveitam para ir fumar um cigarrito, como se fosse o intervalo.
Opta-se então por outra solução. Passa-se o filme das bobines mas aos bocados. Acaba uma, faz-se um intervalo, mete-se a outra… enfim… uma canseira mas que seja assim. Quando regresso à sala na minha fila de cadeiras fico eu e mais duas pessoas.
Começa o filme outra vez, vimos as primeiras imagens pela terceira vez e a coisa não corre mal até acabar a bobine, embora o som… enfim… coitado… desculpem lá meus senhores…
Acedem-se as luzes, começa a passar a segunda, apagam-se as luzes, continua a passar a segunda, acendem-se as luzes, filas inteiras desaparecem, ouvem-se pessoas a rir, alguns batem palmas, são oito e tal da noite e estou cheio de fome.
João Neves já nem aparece, a ministra das Finanças deve ter ido numa das revoadas, a embaixadora do Brasil provavelmente também, seguindo por ali o ministro dos Negócios Estrangeiros, a despedir-se de Milton Gonçalves enquanto Francisco Manso diz aos três gatos pingados que já há um novo vídeo e que se vai voltar ao formato DVD outra vez.
E pronto, com mais ou menos soluços a coisa lá foi até ao fim. Acabou às 10 da noite, quatro horas certinhas depois de não ter começado.
E tudo isto porquê? Porque, desculpem lá meus senhores, estamos em Cabo Verde. Um país onde impera o deixa andar e onde acontecem estas coisas todos os dias sem que ninguém seja penalizado.
Já vai longa a prosa. Prometo que outro dia te explico melhor esta bela característica cabo-verdiana. Ah… o filme? Olha…vai ver. Eu também terei de ir. Porque, confesso, na última parte já só via pratos de comida à minha frente.
Um farto abraço
Fernando Peixeiro



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