Caro amigo
Depois de um domingo ocioso, em que pouco mais fiz do que preparar algumas coisas para a próxima semana e dar uma leitura atrasada por jornais, chamou-me a atenção a queixa de uma família cabo-verdiana, na ilha do Sal, que conta que há um restaurante que se recusa a atender cidadãos nacionais por causa, já se vê, dos turistas. Onde é que eu já vi isto?
Pois. A história passou-se no Sal mas podia passar-se no Algarve, se não agora pelo menos há uns anos, quando as ementas eram só para inglês ver e quem falava português ficava para ali, a um canto, muitas vezes maltratado e até enxovalhado.
Pois esta família de dignos cabo-verdianos chega ao restaurante Cadamosto um belo dia para almoçar, pede a ementa, faz a escolha e encomenda. O empregado até os atende de forma simpática, recebe o pedido e lá vai à sua vida.
Tudo corria bem até que pouco depois chega outra vez o empregado a dizer que afinal não, que não lhes podia servir o almoço. E porquê? Pergunta a família. Simples, responde o empregado, porque estava para chegar um grupo de turistas.
E…? Pergunta a família. Porque a comida era só para os turistas. Carpaccio, massa e peixe grelhado. Depois os turistas iriam passear para a areia e então, se a família ainda quisesse, é que poderia ser servida. Responde o empregado.
Mas se os turistas estão para chegar porque não nos servem já? Pergunta a família. Porque as bocas do fogão estão todas ocupadas e não se pode fazer esperar os turistas. Responde o empregado.
Perante isto o que se pode fazer? Eu sei o que fazia, levantava-me, ia-me embora, e nunca mais lá punha os pés. E ainda contava a toda a gente. Eles que ficassem lá com os turistas deles, e porque a vingança é um prato que se come frio ficaria à espera que um dia esses turistas se fartassem do Cadamosto.
Foi o que fez a família, porque este mundo só será perfeito quando formos todos turistas. Mas antes de abalar, com fome e com raiva, ainda pediu o livro de reclamações.
“Nu ka tem livro de reclamason pamodi nu ka kustuma ser reclamado”, responde o empregado.
Bem… se fosse aí o tratamento poderia ser igual mas o livrinho ai lá isso teriam de ter. Bendita ASAE e benditos direitos dos consumidores.
Mas aqui não, aqui, como já te disse, os consumidores são tratados muito mal. Aqui é o far-west. E porque é assim eu não achava mal que a tal família pegasse num pau de marmeleiro… num pau de marmeleiro não que aqui não há marmeleiros, mas numas pedras… e escaqueirasse… sei lá… umas coisas lá no Cadamosto. E depois o empregado que se fosse queixar ao Totta. Ou à ASAE. Ou ao governo. Ou aos turistas.
Sermos tratados como cidadãos de segunda já é mau, mas sermos assim postos à parte, no nosso próprio país, por estes motivos, é mesmo de pau de marmeleiro, perdão, de uma bela revoada de pedras.
Um irritado abraço
Fernando Peixeiro


Ó Peixeiro, estás em granda, porra… como se não bastasse o teu crioulo estar do melhor. – Veja-se: “Nu ka tem livro de reclamason pamodi nu ka kustuma ser reclamado” – ao fim de um ano de Cabo Verde, já escreves isto: “Sermos tratados como cidadãos de segunda já é mau, mas sermos assim postos à parte, no nosso próprio país, por estes motivos, é mesmo de pau de marmeleiro, perdão, de uma bela revoada de pedras.”
Não tarda ainda te vejo a encabeçar manifestações contra os apagões da ELECTRA, a exigir uma descontaminação na Kebra-Kanela(a praia), ou ainda a exigir que o Filu meta mais varrodes na Prainha para limpar a areia. Sei que jã não vives lá, mas, caramba, passas por lá todos os dias…
E com esta cena da parceria com a UE um dia destes poderás mesmo concorrer contra o Filu à càmara da Praia, que tu chamarás carinhosdamente Santa Maria da Praia. Arre porra ques estes alentejanos adaptam-se depressa.
Mentira! Eu estava lá. Por isso é que nem te responderam.