Custava alguma coisa?

Caro amigo

Uma das vantagens de se viver nas ilhas é que essas questões ficam mais longe. Aqui a imprensa, ou por opção ou por incapacidade, não dá grande destaque ao que se passa pelo mundo. Eu, limitado a ela, fico também um pouco, e se calhar ainda bem, limitado no meu direito e dever de me informar. Mas a impressão que tenho é que a pedofilia aqui não é preocupante. Agora devias ver outras coisas.
Cabo Verde é também exemplar noutra matéria que aflige o mundo inteiro, a Sida. Aqui os casos quase se contam pelos dedos e o governo sonha com o dia em que o país conseguiu acabar com esse problema de vez, o que a mim se me afigura difícil visto que a abertura cada vez maior ao exterior trás dessas maleitas.
Agora a parte má. Cabo Verde, como sabes, aposta e fortemente no turismo. Decisão correctíssima, quanto a mim, já que sobra sol e mar e falta tudo o resto. Por isso, devias ver a quantidade de empreendimentos que estão a nascer por aqui. São, diríamos em Portugal, como cogumelos. Não se diz aqui, que esses cá nascem em latas, porque a chuva que cai por ano não dá nem para musgo.
Mas adiante. Onde é que eu quero chegar? Perguntas tu. Pois quero chegar onde já cheguei outras vezes, porque me mexe com os nervos: a falta de civismo.
Pronto. Eu explico! Imagina uma praia, uma das poucas coisas que este país tem para “exportar”! Estás a vê-la? Areia escura, o que a princípio faz alguma confusão mas que a gente depois se habitua. Água a fazer lembrar o Algarve nos melhores dias, ou seja quente mas não morna. Paisagem agradável, não de palmeiras a bordejar as ondas (ou vice-versa) mas mesmo assim agradável. Pouca gente e muita oferta. Estás a vê-la? Óptimo.
Bem. Agora junta-lhe uns sacos de lixo derramado a um canto. Restos de uma fogueira que alguém se lembrou de fazer, ontem ou há um mês. Umas garrafas vazias de superbock (eles não me pagam para fazer publicidade mas é quase sempre de superbock). Uma chinela partida a boiar. Uma embalagem vazia de compal de pêra. Um pedaço de fio de pesca que o mar trouxe até à praia. Um copo de plástico branco, rachado. Um grupo de miúdos que chegam à praia a brincar com uma fita daquelas coloridas que a polícia usa para isolar um local e que depois largam por ali. Três cães, um deles coxo e com ar de quem tem ou vai ter raiva. E um belo pneu de camião.
E diz-me. Quem é que aguenta? Das duas uma: ou se constroem resorts lindos e caros, com acesso directo a uma praia limpinha de onde ninguém sai mas também não fica a conhecer o país, ou se largam as pessoas por aí e elas apanham o primeiro avião de regresso a casa.
E diz-me só mais uma coisa, para terminar: custava muito ter um bocadinho de cuidado para manter este país, que até é bem pequeno, asseadinho? Eu cá acho que não. Mas isto sou eu a falar.

Um limpo abraço

Fernando Peixeiro


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