Conviver dentro de um ovo

Caro amigo

Em quase um ano que levo aqui das ilhas nunca recebi por parte do poder político um telefonema, um reparo, uma critica, um comentário que fosse às notícias que faço. Não é que não as vejam, que não as leiam. Nos outros órgãos de comunicação social não sei, mas uma colega de um jornal contava-me há tempos que a espanta a falta de reacção ao que escreve.
Tenho para mim que a pressão dos governos sobre a comunicação social existirá sempre. Tenho para mim que é como que inevitável. Dois poderes, que convivem lado a lado, terão sempre tendência para entrar em conflito, pelo menos de vez em quando.
No próximo ano vão acontecer eleições autárquicas aqui em Cabo Verde e pode ser que a coisa mude, porque em tempos de campanha esses conflitos tendem a agudizar-se, mas para ser honesto o único telefonema que recebi até hoje, a propósito de uma notícia minha, veio de um jornal local.
De resto foi, pelo que percebi, a mesma notícia que provocou certa irritação junto de alguns políticos, embora nenhum a tivesse mostrado directamente. Escrevi na altura que o anúncio, em Lisboa, de que ia haver mesmo uma parceria especial entre Cabo Verde e a União Europeia tinha sido praticamente ignorado aqui na Praia. Escrevi também que esse jornal tinha passado ao lado do assunto mas errei, porque não tinha visto bem a página on-line do semanário. Quando me ligaram do jornal a chamar-me a atenção de imediato fiz uma notícia a corrigir o erro, o que não impediu o jornal de, mesmo assim, escrever um comentário a sugerir que haveria intenções escondidas naquilo que eu assumi como um erro meu. E que não foi mais do que isso.
Mas de resto… nada. Nunca o governo, partidos da oposição, sindicatos, associações, embaixadas, seja quem for, comentaram qualquer notícia. Nunca recebi um telefonema de um assessor de imprensa que não fosse para me informar de um qualquer evento.
E julgo não estar enganado que essa prática de telefonemas para as redacções não é frequente aqui. Como não são outras. Há tempos, no final de uma reunião no Ministério das Finanças, uma responsável de um organismo internacional, por acaso portuguesa, mas só por acaso, pediu aos jornalistas que lhe dissessem as perguntas que lhe iam fazer antes de câmaras e microfones serem ligados. Foi a risota geral. “Esse tempo acabou” e “nós fazemos as perguntas que quisermos” foram duas frases que retive. Está claro que a tal responsável se vingou e às perguntas que quisemos respondeu com respostas ocas. Também está no seu direito.
Há menos de uma semana uma colega de um jornal contava-me, quase a queixar-se, que quando escreve notícias onde aponta erros e falhas de um determinado ministério não tem qualquer reacção depois.
Outra admitia que sim senhor, recebe por vezes alguns telefonemas de assessores, a fazer sugestões, a dizer que o jornalista se esqueceu de falar deste ou aquele assunto. E esses telefonemas, dizia-me, decorrem muito da proximidade. Jornalistas e assessores foram muitas vezes colegas de escola, conhecem-se todos muito bem, nalguns casos são amigos, porque Cabo Verde é “um ovo”, como dizia.
E por o ser, cada ministro conhece cada jornalista, o primeiro-ministro, parece-me, sabe de cor o nome de cada um dos jornalistas dos principais órgãos de comunicação social. Aqui encontramo-nos todos nos mesmos restaurantes, nas mesmas praias, nos mesmos passeios. E por vivermos todos no mesmo ovo vivemos em promiscuidade? Não me parece, os dois poderes encontraram forma de manter alguma distância e essa forma passa se calhar por uns não andarem a comentar as notícias dos outros.

Um distante abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Conviver dentro de um ovo”

  1. 1 Isadora Ataíde

    Caro amigo,

    Parece-me cada vez mais complexo identificar o que são as notícias, quem ou o que é a “opinião pública” e, ainda mis, reflectir os interesses da dita “sociedade”. A próposito da Cimeira União Européia-África, visitei os sítios das diversas agências de notícias e jornais internacionais. Poucas aludiram a Cimeira, para além dos veículos portugueses. Nas notas, promessas de tratados sobre paz, segurança e desenvolvimento dos líderes europeus e africanos, mas já conheces essa história. Ficam todos felizes: os políticos que se encontraram, os jornalisas que cobriram o evento, os assessores que emplacaram seus “chefes” e o “povo”, que tenta crer no futuro!

    Folheei as páginas do Jornal de Cabo Verde e, sabes, me pareceu um bocado rude…

    Beijinhos, cuidado com o excesso de sol, Isadora.

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