Conversa da treta
Publicado por Fernando Peixeiro 9 Novembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Tenho visto, quando posso, as notícias daí que dão conta de uma vaga de incêndios sem precedentes, em pleno mês de Novembro. Não é segredo para ninguém que o tempo está mudado e dize-lo já se torna até enjoativo. Mas o tempo sempre foi um bom tema de conversa para quando não temos mais nada para dizer. Tens de concordar.
Não deve haver nenhum tema mais interessante para meter conversa do que o tempo. Se apanhas um táxi e aquele silêncio todo te incomoda fica sempre bem uma frase do género “tá tanto calor… o tempo está mesmo mudado”. Fica logo ali garantida uma bela converseta até final da viagem. Começa-se pelo tempo e termina-se a dizer mal do governo, que também fica sempre bem e dá um certo alívio.
Da mesma maneira, quando estás com alguém e de repente se instala um longo silêncio, sem que te ocorra nada, uma frase do género “pá… já viste o frio que está?”, ou “tem chovido tanto que qualquer dia começa-nos a nascer cogumelos na cabeça”, é logo mote para um animado debate, que provavelmente acabará a dizer mal do governo ou de pessoas lá do trabalho.
É este exercício que estou agora a fazer. Mudei de casa ontem, estou sem telefone ainda e com Internet durante pouco tempo. Pressionado, apressado, estive para aqui de pé (alguém tempo sentado, mas não queria dizer sentado porque rima com pressionado e apressado) a pensar que novas te daria.
Que mudei de casa? Já sabias. Que tenho por isso dedicado menos tempo ao trabalho? Presumias. Que ando cansado? Adivinhava-se. Que a Arlinda anda felicíssima com a nova casa, cheia de luz, ao contrário da outra? Não te interessa. Que a Cabo Verde Telecom me prometeu telefone no máximo até quarta-feira e que até hoje não disse nada? E que quando ligo para a empresa para saber o que se passa ninguém me responde? É o costume. Que vou jantar numa esplanada, ao fresco? Nem inveja te faço sequer. Que lá fora, num campo aqui ao lado, está a decorrer um jogo de futebol em enorme algazarra? É-te indiferente.
Que não percebo nada do que eles dizem quando falam rápido? Era esperado. Que em Praia Baixo há uma das praias mais bonitas de Santiago, de areia preta mas mar calmo, com pequenos sombreiros espalhados pelo areal feitos de folhas, e que no próximo fim-de-semana devo lá ir? Ou então que vou a S. Francisco, outra bela praia, quase sempre sem ninguém, onde cardumes de peixes te vêm beliscar (na verdade morder, mas são tão pequeninos que só te fazem cócegas)? E onde comes depois, num restaurante à beira mar, uma garoupa fresquinha grelhada?
Também não! Estás longe de mais e não chegarias a tempo. Por isso o melhor mesmo é falar-te… do tempo.
Por aqui já se nota o Outono. Os dias estão mais curtos, às seis da tarde o sol já se põe e de noite, nalgumas noites, corre uma brisa fresca. Mas de resto está calor aqui, como de costume. Aí também, mas isso já é mais estranho. As estações do ano estão todas trocadas. O tempo anda mesmo mudado não anda?
Um abraço
Fernando Peixeiro



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