Contadores de histórias

Caro amigo

Há pessoas que gostam de contar histórias. Pode não ser nada de especial mas fixam-se em pormenores, acrescentam aqui e ali uma pitada para dar mais cor e servem-na depois entre risos e devagar, como convém. Há um homem que vive no Calhau, ilha de S. Vicente, que, tenho a certeza, ainda hoje se ri. Dentro de um ano ainda falará do assunto. Foi um amigo dele que o disse. Assim mesmo. “Ele adora histórias, daqui por um ano ainda anda a contar isto, mas nessa altura já lhe acrescentou mais umas coisas”.
A história não tem nada de especial, não chega sequer a ser história, nem conto tão pouco. Mas que queres? Um homem habituado ao mar, que vive ao lado dele, que o conhece, tem de se rir com o ar de pânico de outro que, numa bela tarde, olha para aquela água toda com ar de quem vai morrer a qualquer momento. Na altura não vi, mas ele já andava saltitando atrás de mim, apontando para os que estavam no barco, perguntando o que me iam fazer.
Passou-se isto quando fui para o Ilhéu Raso, ali entre S. Vicente e Santo Antão, como te falei na minha última carta. Cheguei no avião da manhã a S. Vicente, andei a fazer compras com o José Melo, ambientalista, experiente também nas andanças do mar, e prevíamos largar para o Ilhéu de seguida, mas ele decidiu esperar que o mar acalmasse com a maré, pelo que só iríamos à tarde.
Confesso que fiquei apreensivo quando vi o tamanho do barco, um semi-rígido, umas fitas adesivas num dos lados, não sei se por charme ou por haver na verdade algum furo. De um dos lados a fita já adejava ao vento. Esperei que fosse charme apenas.
O que é certo, caro amigo, é que o tempo não melhorou. Pelo contrário. Por isso, pelas três e tal, lá se meteu o barco ao mar. “Vão apanhar muita água, estás preparado para te molhar todo?”, perguntava-me o irmão Melo, enquanto o outro, o meu anfitrião, já lá estava ocupado a tentar por o motor a funcionar. Eu na praia, a ver aquilo, as ondas enormes, o vento, o ar de chuva.
Iríamos três no barco, eu, o José e um amigo dele. Eles já lá estavam, prontos para partir, e eu ali, pregado na areia, nada tranquilo, sem dar conta do ar divertido do irmão do José Melo, saltitando atrás de mim.
“Vai, tens de ir agora. Se o barco se aproxima mais a hélice bate nas rochas”.
O barulho das ondas e do vento não deixou que José Melo ouvisse, mas com a mão fiz sinal que não e disse meio baixo: eu não vou. E repeti. Gáudio do contador de histórias, o único a ouvir. “Vais sim, tens de ir agora, tem de ser mesmo agora”. E riu-se muito.
Bem… Fui. Entrei no barco já molhado até aos ossos, agarrei-me com todas as forças às cordas, sentei-me na borda, escorreguei para dentro várias vezes, molhei-me ainda mais, esfolei os dedos de tanto roçar na borracha e passei três das piores horas da minha vida ali, nestes preparos.
Porque, caro amigo, o mar estava bravo mesmo. Creio que se pôs assim de propósito para mim, porque no outro dia acordou manso. E eu, que nunca tinha viajado assim, ali estava no meio daquelas ondas, a sentir-me demasiado pequeno para tanta água, e, pior, o barco demasiado pequeno para tanta água.
Fustigados pelo vento e pelas ondas lá chegámos às proximidades da ilha de Santa Luzia, onde até deu para parar o barco e fumar um cigarro, com um sereno José Melo a garantir que aqueles barcos nunca viram nem vão ao fundo e que o único problema era que assim a viagem ia demorar mais tempo porque tínhamos de ir devagar.
Parte dois, entre Santa Luzia e o Ilhéu Branco. José Melo, para me distrair, contava-me histórias de naufrágios, de partidas do mar. As ondas, o barco às vezes lá encima e outras bem lá em baixo, em autênticos vales de água, já me assustavam menos. Continuava molhado mas estranhamente com a boca seca, extremamente seca. Ainda perguntei se havia coletes salva-vidas mas o ar de admiração do José não me deu hipóteses de voltar ao assunto. “Por acaso até estão para aí uns”. Para aí. Fraco consolo!
Ilhéu Branco. Nova paragem. Meter combustível e seguir depois, porque a noite se aproximava. Foi José Melo, habituado a estas coisas, lobo-do-mar, sem dúvida, quem o disse, ar meio preocupado.
Não sabia, mas se calhar já imaginava que o pior estava para vir, o canal entre o Ilhéu Branco e o Raso. Aí, caro amigo, foi o delírio. Pela minha parte deixei de olhar aquelas ondas. Primeiro porque me davam mais medo, tão grandes que eram, e depois porque ali para o fim já nem as via tal a escuridão. Só queria que o tempo passasse rapidamente, esperava ouvir a frase milagrosa “estamos a chegar”, e ficava ali, já sentado dentro do barco que não conseguia manter-me sentado na borda.
Noite cerrada lá apareceu terra. Sinais de luzes, ajuda dos rochedos, dos que já lá estavam (o Ilhéu Raso não tem praia) e finalmente umas benditas mãos que me ajudaram a saltar para terra.
“Eu vi logo que ele vinha com medo. Vinha branco e esteve meia hora ali sentado, sem falar”. Tiago, ambientalista, nos comentários da viagem, depois de todos em terra e respectivas bagagens, quando se comentava que foi um pouco arriscado fazer a viagem assim.
Ia com medo sim senhor. No regresso, mar meio picado também (porque bom só enquanto estive no Ilhéu), já o tinha perdido. Mas a primeira vez, levar com um mar assim, e ainda por cima de noite…
Não sei é se de facto ia branco. Nem sei se estive meia hora sem falar. Talvez o Tiago seja também um contador de histórias.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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