Conheci Tiago Estrela

Caro amigo,

Uma história triste, essa do alemão. Contei-a há pouco a Tiago Estrela, enquanto eu bebia um café e ele comia uma tosta mista com um galão. Pretexto para, ele, me contar também um encadeado de histórias, entre elas a de que, na segunda guerra, os submarinos alemães ficavam à coca dos barcos que saíam do porto do Mindelo, na ilha de S. Vicente, para os afundar.Estranhei, eu e a Isabel, da RTP, que entretanto se juntou a nós. Não sabíamos que durante a guerra os alemães tinham descido tanto, nem que os habitantes da ilha lhes vendiam verduras e carne.

Que sim, disse Tiago Estrela, contando até a história de um jovem japonês que se apaixonou por uma mulata da terra.Tiago Estrela é assim. Velhote esperto, transborda cultura, experiência e histórias de vida. Conta-as com pormenores, junta-lhe experiências vividas e informações livrescas, algum humor à mistura. E nós ficamos ali a ouvi-lo, na certeza de que em cada café, em cada tosta mista, aprendemos sempre mais alguma coisa.Tenho a sorte de Tiago Estrela morar a dois passos da minha casa. Antigo secretário-geral da Presidência da República de Cabo Verde, companheiro de carteira de Amílcar Cabral, dono de uma imensa colecção de selos de todo o mundo, publicou já um livro e tem outro quase pronto.

É natural de S. Vicente mas estudou em Lisboa e trabalhou muitos anos em Angola, país que adora e que elogia pelas suas riquezas naturais. Vive hoje em Santiago e é um homem feliz com a sua reforma, os seus afazeres, que partilha com a mulher e uma neta, e as suas pequenas discussões intelectuais e partilha de experiências.Uma delas vem à conversa a propósito de qualquer coisa, de qualquer frase. Fala de uma terra que já não existe, tão antiga como a Cidade Velha, tida como a primeira urbe de Cabo Verde.

Fala da história de Portugal de há 500 anos, das primeiras capitanias, da colonização lusa, de Vasco da Gama, dos restos de uma igreja e de histórias passadas de boca em boca. E Tiago Estrela não disfarça o entusiasmo quando lhe propomos ir à procura desse povoado, do que restou dele. Ele próprio se propõe, porque está reformado e tem muito tempo, ir meter o nariz nos documentos mais antigos para saber mais.Sobre as nossas conclusões irei dar-te conta um dia destes. Mas é gratificante poder falar com um homem assim, de bem com a vida, loquaz e um verdadeiro livro de história e histórias.Porque afinal nem todas as histórias de vida têm de ser tristes. A de Tiago Estrela não é. E faz da nossa uma história também mais feliz.  Cumprimentos.Fernando Peixeiro


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