Caro amigo

Li com alguma preocupação a carta que me enviaste e fiquei a pensar que, se calhar, o Portugal que eu conhecia já não vai existir quando regressar. Mas depois, andei por aqui a dar voltas à cabeça, e confesso que fiquei ainda mais preocupado. Na verdade, caro amigo, eu nunca conheci Portugal, como não conheço Cabo Verde. A verdade verdadinha é que eu sou mesmo é burro.
Já me tinha passado isso pela cabeça algumas vezes aí. Quando os nossos políticos, sejam eles quais forem, e têm sido muitos, apregoam um país fantástico, um oásis, eu, confesso, não vejo nada. Depois vêm com a conversa de que somos aumentados acima da inflação mas eu chego ao fim do mês e o dinheiro cada vez chega para menos. Calo-me. Se eles dizem é porque lá sabem não é? Quem sou eu para discordar?
Aqui está a passar-se o mesmo. A mudança de ares, a mudança de país, não fez de mim mais esperto. Continuo obtuso, sem entender coisa nenhuma. Oiço os discursos dos governantes, tento ter atenção a cada palavrinha, e não tenho dúvidas: Cabo Verde é um país de futuro, com uma taxa de crescimento muito acima da média, com investimentos de milhões, com uma sociedade quase perfeita, sem guerras, sem miséria e quase sem violência.
A coisa soa bonita e, confesso-te, que sinto algum orgulho ainda que esteja aqui apenas de empréstimo, porque eu na verdade sou português, ou melhor, algarvio… já nem sei…
Mas depois… não entendo… Ainda esta semana o governo lá falou de um relatório sobre criminalidade. Dizem que há quase 10 anos que cada vez há menos crimes contra as pessoas, que isto é um país de brandos costumes. Mas… e os assaltos, a pessoas, que oiço falar diariamente? As facadas que de vez em quando são notícia? Os turistas esbulhados dos seus bens? O medo que as pessoas têm de andar na rua? O deserto em que a Praia se torna quando cai a noite? Eu mesmo, que só saio a pé para ir ao café aqui em frente? Porque é que olho para todos os lados ainda assim, se o governo diz que não se passa nada?
Ontem mesmo, sábado, eram 10:30, aqui quase à porta de minha casa, uma pessoa minha amiga foi assaltada. Bateram-lhe, rasgaram-lhe a roupa, e só lhe roubaram o telemóvel porque era a única coisa que tinha. Foi a segunda vez no mesmo local, uma zona “nobre” da capital, num dia de sol, com pessoas a passar, com trânsito.
Fui com ela apresentar queixa na esquadra e no final o chefe que tomou conta da ocorrência teve este desabafo: isto está a ficar sem controlo, quem devia fazer alguma coisa não faz nada e eu não sei onde isto vai acabar, já não sei o que havemos de fazer, a solução era por um polícia atrás de cada pessoa.
Isto de que ele falava era a criminalidade, os assaltos, os bandos juvenis. Mas… se o governo ainda esta semana…
É por isso que te digo, além de burro sou um desadaptado. Se vivesse no verdadeiro Cabo Verde a esta hora que te escrevo (sábado à noite) deveria andar por aí a passear a pé e não aqui, em casa, de portas trancadas. Se vivesse no verdadeiro Cabo Verde quando ela hoje me veio com a história de ter sido assaltada tinha era levado logo um raspanete, para não andar a imaginar parvoíces. E o chefe da polícia merecia no mínimo ser despedido.
Está visto que ao não entender o verdadeiro Cabo Verde também não consigo entrar nele. Vivo numa espécie de limbo, se calhar fruto de uma imaginação doentia, sem visão para chegar onde os governantes chegam todos os dias e sem conseguir enxergar as coisas mais óbvias que eles passam a vida a falar.
Sinto-me, caro amigo, baralhado, confuso, triste e burro que nem uma porta.
E tu? Em que verdadeiro país vives?
Um obtuso abraço

Fernando Peixeiro


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