Caro amigo
Sem o ser, o navio Amistad ficará para a história como um dos mais famosos navios negreiros, pela mão de Steven Spielberg. Uma réplica aportou este fim-de-semana, ontem, ao porto da Praia e foi um folclore. Também lá estive, a ver o barquito e à conversa com um descendente directo de Sengbe Pieh, que esteve na liderança da revolta do veleiro, em 1839.
Devias de ver. Ainda jovem, peito nu e colar de dentes de não sei o quê (provavelmente qualquer coisa sintética) ao pescoço, John A Kamara, “first african crew member of Amistad”, como ele próprio fez questão de escrever no meu bloco, só se vestiu para falar para as televisões mas nunca deixou de gritar palavras de ordem pela liberdade e incitar o povo a segui-lo.
Mesmo a bordo da réplica do antigo navio espanhol que os americanos fizeram, quando falávamos um pouco, empolgou-se, pendurou-se na amurada, virou-me as costas e encetou um belo discurso sobre a liberdade, virado para o cais, onde centenas de populares o escutaram atentamente e em silêncio.
Lembrei-me de uma vez, ainda nem jornalista era, ter visitado as instalações da UPI (Agência de Notícias norte-americana que já não existe) em Lisboa. A meio da visita chegou uma delegação da agência chinesa e o representante da UPI aproveitou para ir sair um momento, deixando-me com eles. Tentando ser simpático, e porque os três senhores apontaram para um livro que tinha na mão, comecei a explicar-lhes de que se tratava e eles sempre a acenar que sim e a sorrir. Estava eu já embrenhado num monólogo sobre demografia e eles de sorrisos escancarados quando o delegado da UPI chega e me diz que os senhores acabaram de chegar, estão a apresentar cumprimentos e não falam uma palavra de português.
Foi por isso que ontem não tive coragem de dizer a Kamara que aqueles atentos ouvintes não entendiam uma única palavra em inglês. Foi um colega jornalista que, timidamente, lhe tocou no ombro, e lhe disse. E julgas que ele, como eu, ficou envergonhado? Não. Continuou porque o que interessa é o espírito.
Retive isso e estou aqui a partilha-lo contigo. O inflamado Kamara, com discursos sempre na ponta da língua e slogans pela liberdade. E o cepticismo dos cabo-verdianos, que não se dignaram levantar os punhos aos apelos de viva a liberdade.
É como se agora alguém andasse aí, por Portugal, de terra em terra, a promover comícios com palavras de ordem como “o povo unido jamais será vencido” ou “fascismo nunca mais”. A liberdade, no sentido em que Kamara usava a palavra, já é um dado adquirido para Cabo Verde e por isso não vale a pena estar a dar-lhe vivas. Foi isto que me pareceu e gostei. Se calhar estou errado. O melhor é amanhã voltar a falar-te do Amistad.
Um amistoso abraço
Fernando Peixeiro

