Coisas sem importância que me irritam
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 23 Julho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Não conhecia essa “generala” de que me falas. Conheci-a agora, tardiamente, também porque aqui já é noite cerrada e acabei de chegar. Passei o dia na outra ponta de Santiago e estou cansado e com stress, a saborear já o banho que vou tomar. Mas não queria deixar de te falar de duas ou três coisas que me irritam aqui em Cabo Verde. A condução é uma delas.
Em Portugal, confesso, já me irritava a falta crónica de piscas nos automóveis. Pelo menos metade parece que são vendidos sem piscas. Provavelmente sairão mais baratos. Pois aqui ainda é pior: a maior parte dos condutores, provavelmente donos desses carros mais baratos, vê-se obrigada a não poder assinalar para que lado vai ou se vai parar ou arrancar.
Era suposto que um taxista que vê um cliente abrandasse a marcha, encostasse à berma, e colocasse o pisca da direita. Era suposto porque só abranda e encosta. Ora se tu vais atrás e vês o carro da frente a abrandar o que fazes? Abrandas também, até porque se for de noite não sabes o que levou o homem a meter o pé ao travão. Sabes depois, quando vês entrar o cliente e o taxista seguir a marcha, também sem meter o pisca da esquerda, num total desprezo pelos outros condutores.
Mas não é só de taxistas que falamos. Vejo com frequência condutores que pura e simplesmente param na estrada para cumprimentar alguém, para atender o telemóvel, até para fazer xixi. Em qualquer lugar e a qualquer hora. Piscas? O que é isso?
Mas em compensação a apetência pelas outras luzes é grande. Se viajo de noite é frequente, como ainda hoje, ter de encostar à berma e até parar porque os que conduzem em sentido contrário ligam os máximos e ali vão eles. Sempre de máximos e se o carro tem faróis de nevoeiro podes ter a certeza que também irão ligados. E a luz de nevoeiro de trás também convém ir sempre ligada, até porque em Cabo Verde é muito frequente o nevoeiro, como deves imaginar.
E depois aqui atravessar uma passadeira é um momento curioso. Ainda há pouco parei junto da passadeira, na faixa da direita. E que faz a senhora que quer ir para o outro lado? Eu digo-te, atravessa até meio, encosta-se ao meu carro, e espreita a faixa da esquerda. É que eu parar não é sinónimo de que outros também param e se ela continuasse a atravessar a estrada era “passada a ferro” por dois veículos a alta velocidade. Previdente aquela mulher!
Mas o que me causa maior irritação, caro amigo, são mesmo os cães e a displicência com que nos tratam a nós, os humanos. Não tenho fixação pelos cães, como deves estar já a pensar, mas devias ver a quantidade de vezes que tive hoje, numa viagem do Tarrafal para a Praia, de parar ou de mudar de faixa para me desviar dos cães deitados, a brincar ou simplesmente a passear na estrada. A qualquer momento atiram-se, galgam passeios quando os há, atravessam-se cheios de bravata, ignorando pura e simplesmente que o monstro de lata que lá vem, se os apanha, pode provocar-lhes tal dano que nem o Dr. House os safa.
Em Timor, era rara a viagem entre Dili e Baucau, as duas principais cidades, em que não tivesse de me desviar de cães, búfalos, patos, galinhas, porcos e timorenses deitados na estrada. A estrada era ali o ponto de encontro, onde se reuniam os amigos (e se deitavam no alcatrão, por vezes) e todos os animais que existem na ilha.
Aqui são os cães, grandes e pequenos, cadelas com filhotes, autênticas alcateias que tomam de assalto as vias de comunicação. É por isso que não te falo de uma vaca ou outra, de uma cabra, de um burro, de que às vezes nos temos de desviar. Porque os cães são donos e senhores e responsáveis por algum do meu cansaço.
Mas já tenho uma solução: que o governo abra as portas a uns quantos imigrantes vietnamitas. Faria deles homens felizes e de nós, que temos de andar por aí, também.
Isto não é muito importante pois não? Pois… nem só as coisas importantes nos chateiam… da próxima vou tentar falar-te da fome no mundo. Em África por exemplo.
E no Vietname haverá fome?
Um simples abraço
Fernando Peixeiro

