Choveu em Santiago

Caro amigo

É quase noite e há pessoas a correr à beira mar, pela marginal. Do outro lado há pequenos grupos junto das casas, alguns encostados, pé na parede, calções e chinelos. Circula-se a 40 quilómetros, no máximo, transpira-se à razão de 40 mililitros por hora, no mínimo. Choveu, faz calor, e como já deves ter adivinhado estou de regresso à Praia.
Choveu em Santiago há poucos dias, adivinho-o mal o avião fica imobilizado na pista e tenho tempo para olhar a paisagem pela janela, enquanto espero que todos saiam, para procurar depois a minha mochila, perdida algures 15 lugares na retaguarda.
Sinto-o pelo cheiro que entra pela porta aberta, pela cor da terra e pelos tufos de erva que já cresceram. Ainda bem que choveu, diz-me a Arlinda, acrescentando que antes faltava a luz quase todos os dias e os preços no supermercado estavam acima da hora da morte.
Batatas há muito que deixaram de aparecer.
Água nas torneiras uma hora e de dois em dois dias.
30 graus às sete da tarde e uma humidade nunca sentida. Ainda bem, diz-me a Arlinda, porque na semana passada estava muito mais calor.
Choveu em duas ilhas mas as nuvens carregadas prometem mais, para amanhã, para a semana, talvez para Outubro. Era bom, diz a Arlinda, se bem que a chuva de 10 minutos inundou a Praia, como de costume, e deixou ruas alagadas e um mau cheiro insuportável. E em 24 horas lá se foi, para o mar e para o ar, como de costume. E a ilha já está outra vez sequinha. Vejo as ervitas a nascer e vaticino-lhe uma curta vida. Vai  chover mais, garante o meu vizinho. As nuvens carregadas lá estão, a dar-lhe razão. Amanhã, para a semana, lá para Outubro.
Ainda sinto o cheiro a terra molhada num cantinho ao pé de casa mas fico na dúvida se é restos de chuva ou de rega. Um rapaz jovem assegura-me que tomou conta da casa na minha ausência e acha que lhe devo 20 contos. Pede-me que guarde no meu quintal a cadeira na qual passou as últimas 30 noites, à minha porta, e sei nessa altura que tenho de lhe pagar. Penso que não deve passar recibos.
A Arlinda fez-me o jantar e pôs-me a mesa. Frango no forno, como ela sabe que eu gosto. Como não deixei rigorosamente nada na dispensa adivinho que deve ter feito na sua casa. Trouxe-lhe de Lisboa um medicamento para a enxaqueca, caríssimo, e se já tinha pensado nisso agora tornou-se óbvio que não lho vou cobrar.
Sinto-me um bocadinho triste. Passei os últimos quatro dias de férias rodeado de pessoas de quem gosto e que me querem muito e agora aqui estou, sozinho. Mas sei que amanhã já me passou. Já tenho um jantar, e depois outro, e depois uma festa. Das outras vezes também foi assim. E passou logo.
A casa cheira a mofo mas está limpinha. Ligo o ar condicionado. Desfaço as malas. Descubro que não tenho água. Bebo uma cerveja e como amendoins. Vejo televisão. Janto o frango com apetite. A tristeza começa a fazer as despedidas. Deito-me sem poder tomar um banho.
É noite e ainda deve haver pessoas a correr à beira mar, pela marginal. Choveu, faz calor, e como já deves ter adivinhado estou de regresso à Praia.

Um caloroso abraço
Fernando Peixeiro