Cega, surda, paralítica e atrasada mental
Publicado por Fernando Peixeiro 10 Janeiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Um homem é apontado como um dos principais suspeitos de pertencer a uma rede de pedofilia aqui em Cabo Verde e de ter violado duas crianças e ao fim de cinco anos a Justiça vem dizer que nem sequer ficou provado que os menores tivessem sido violados e arquiva o processo. E demorou cinco anos? Ele há cada uma!
O homem chama-se Rui Figueiredo, é deputado do maior partido da oposição de Cabo Verde, o MpD, e já foi ministro dos Negócios Estrangeiros, quando o partido esteve no governo. Há cinco anos era o líder da bancada parlamentar, já na oposição.
Pois vê tu que em Abril de 2003 ele e o que era na altura responsável pela cooperação do Luxemburgo com Cabo Verde foram apontados como dois pedófilos, que se iam “abastecer” de crianças no Instituto Cabo-Verdiano de Menores do Tarrafal, uma vila mais conhecida pelo campo de concentração mas que tem também bonitas praias.
Grande alvoroço. O deputado pediu a suspensão da imunidade parlamentar, para poder prestar contas à justiça e o luxemburguês foi mesmo preso, porque parecia que esse é que era o “cabecilha”. Foi preso mas ao que parece só por dois dias, depois pagou uma caução de 800 mil euros e cá ficou, para poder aguardar o desfecho do caso em liberdade. Ficou, mas pouco. Uns dias depois fugiu e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Esperto, porque andaria por aqui aos caídos durante estes quase cinco anos, até ver esta semana o Ministério Público dizer-lhe que afinal não havia provas nenhumas.
O que a mim me espanta é que o Ministério Público só agora venha dizer que mandou arquivar os dois processo-crime por não ter sido possível “obter indícios suficientes da verificação de crime ou quem foram os seus agentes”.
E mais, o despacho de arquivamento afirma que, na sequência das investigações às denúncias de dois menores (13 e 14 anos) nem sequer ficou provado ter havido crime e que não foram detectados sinais de abuso sexual nos exames médicos então feitos.
Eu não sou especialista mas faço este raciocínio muito simples: se uma criança é violada é possível detectar os sinais dessa violação perante um exame médico, que serão tanto mais visíveis quanto se actue com rapidez. Falou-se nisso, aliás, até à saciedade, no caso de pedofilia dos alunos da Casa Pia, aí em Portugal.
Ora se essas perícias foram feitas às crianças na altura e não foram detectados sinais de violação, porque é que se esperaram cinco anos para o dizer? A não ser que essas perícias só agora tenham sido feitas. E aí deixa-me ir ali à cozinha rir à gargalhada e já volto.
Os autos até dizem também que não foram encontrados elementos que apontassem a existência de qualquer tipo de contacto entre as alegadas vítimas e o deputado.
Ah! Pois! Cinco anos de investigação? O homem perguntava ontem, e eu estou inclinado a dar-lhe razão: “Como justificar tamanha monstruosidade se não por confluência de interesses para uma abominável campanha de assassinato político e moral?”.
Isto, caro amigo, parece-me que não se faz. Não se deixa um homem (um, porque o outro fugiu) cinco anos a ser apontado na rua como “o deputado pedófilo”, excedendo todos os prazos legais e mais alguns, e depois vir dizer alegremente que afinal não havia nada e que a própria justiça não entende como é que um nome, Rui, saltou depois para o nome de Rui Figueiredo, chefe da bancada parlamentar do MpD.
É isso mesmo. Não me enganei. O procurador da comarca do Tarrafal terá manifestado essa incompreensão, de como é que um nome, Rui, que aparecia na investigação, passou assim a Rui Figueiredo, o deputado.
Então e a vida pessoal das pessoas? A estabilidade emocional, profissional, familiar? O bom nome a que todos têm direito?
É certo que sendo a justiça cega às vezes se possa enganar. É certo que a pedofilia é, e muito bem, um crime e que os indícios devem ser investigados. E se há suspeitos pois que se vá em frente, que haja uma investigação rápida e séria, e se for verdade que se faça um julgamento e as previstas sanções. Mas quando está em causa a vida e o bom-nome das pessoas não pode deixar passar cinco anos.
Que a justiça seja cega ainda vá que não vá. Agora cega, surda, paralítica e atrasada mental já é obra!
Olha… um abraço
Fernando Peixeiro



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