Caro amigo
Não foi a primeira vez que aconteceu e não será a última. É por isso que eu nunca entro num elevador sem ter a certeza de que ele lá está, porque às vezes não está. Sábado não estava, quando Carlos Alhinho, cabo-verdiano, antigo jogador de futebol, treinador e seleccionador, entrou.
É uma morte daquelas a que chamamos estúpidas. O técnico estava em Angola, onde já foi seleccionador nacional e onde, ao que parece, tinha acabado de assinar contrato para treinar um clube de lá, o 1º de Maio.
Assinou o contrato no hotel Mombaka, em Benguela, chamou o elevador, entrou e caiu no poço, tendo morte quase imediata. Diz aqui a imprensa que os responsáveis da unidade hoteleira já lamentaram o sucedido. Lamentar? Casos assim pura e simplesmente não podem acontecer. Lamentar? Fraco consolo para a família e para os amigos, e pelo que percebi eram bastantes. Num país normal agora levaria, o hotel, com um processo com pedido de indemnização que teriam de hipotecar a casa. Digo eu.
Conheci o Carlos Alhinho no mês passado, aqui na ilha do Sal. Ainda que pouco tivéssemos falado pareceu-me um tipo fantástico, muito boa onda, e muito simpático. E era assim sem dúvida, pela quantidade de amigos que por ali tinha, ainda que viva noutra ilha, em S. Vicente, quando não anda por fora a trabalhar.
Carlos Alhinho era irmão de Teté Alhinho, cantora, especialmente de mornas, que mora aqui na Praia e que, essa sim, conheço melhor e que, como deves imaginar, está desesperada.
Tinha 59 anos e começou a jogar futebol na Académica do Mindelo, há 45, era então um puto. E foi puto para outra Académica, a de Coimbra, onde jogou até 1972, passando depois pelo Sporting, pelo Porto e pelo Benfica.
Como vês, estamos a falar de um grande futebolista, licenciado em Engenharia Técnica e Agrária e em Educação Física e Desporto, que foi 20 vezes internacional por Portugal, 15 delas pela selecção A. E que foi considerado o futebolista cabo-verdiano do século XX pelo Comité Olímpico Internacional.
Isto para já não falar da sua carreira como treinador, aqui em Cabo Verde mas também em Angola, Marrocos ou Qatar. Este homem que ainda tinha tempo para dirigir uma academia de futebol em S. Vicente e que um elevador avariado de um hotel matou no sábado passado.
Cabo Verde entra nesta primeira semana de Junho mais pobre.
Um abraço
Fernando Peixeiro
4 Responses to “Carlos Alhinho”
- 1 Pingback on Jun 2nd, 2008 at 11:24
- 2 Pingback on Jun 3rd, 2008 at 10:34



Julgo que terá sido o primeiro jogador a representar os ‘três grandes’: Benfica, Sporting e Porto.
Infelizmente, viria a sofrer este acidente que não deveria ser possível acontecer…
quando recebi a noticia ia eu para o Casino estoril organizar a festa do 12 ano do colegio alemao. quando nao aguentei e cairam me as lagrimas sem dó nem piedade, passei a tarde optimamente ate que chegou a hora do espetaculo e desmanchei me a chorar por ele, nao conheia bem o senhor, mas o filho q e como um pai para mim… Para sempre, vizinho, aqui agora e sempre. Morte que terá q haver consequiencias para o tal hotel. um beijinho de apoio e para sempre