Café expresso
Publicado por Fernando Peixeiro 13 Março 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Um ano depois de termos iniciado esta nossa correspondência, e porque temo que os balanços me possam deixar enjoado, deixo-te aqui apenas 12 momentos de café. A bebida, também, mas mais o lugar. Um por cada mês. Se continuarmos prometo para o ano mandar-te 24.
Um jovem adolescente olha pacientemente as abelhas que buscam algum pólen nas flores já meio ressequidas das babosas, conhecidas aí como aloé vera. Tenta e consegue apanhar uma, sem se picar, e atravessa com ela a rua , onde estão outros, todos de farda da escola. A abelha é para meter dentro da camisa de um deles e os saltos que dá fazem o grupo rir. Pela cara da vítima a abelha não cumpriu o seu destino.
Um homem aproxima-se das mesas, de ar furtivo, e pede em surdina uma moedinha. À porta do Café Sofia surge outro homem, fato de treino e ar perscrutador. Faz, como de costume, calor e na esplanada do café os clientes aconchegam-se nas mesas que estão à sombra. Muitos são turistas mas mesmo assim a safra é fraca, porque o homem de ar furtivo afasta-se antes que tenham tempo de deitar a mão ao bolso. Fica por ali, a olhar, a rondar. O homem do fato de treino aparece com um chicote daqueles feito de pila de boi. O homem de olhar furtivo desaparece. Os turistas continuam amontoados.
No Café-Restaurante Benfica, em Praia Baixo, vendem-se garrafas que já foram de cerveja super bock agora adaptadas para grogue. Acho a ideia brilhante, porque garrafas não faltam, reciclagem falta, e grogue é a bebida nacional. À tardinha a sala está cheia. Peço um café e dizem-me que demora um bocadinho porque têm de o ir fazer. Explicam que não há ainda máquina de café, porque são muito caras, mas que me podem fazer um no fogão. Bebo uma coca-cola fresquinha. A garrafa irá irremediavelmente para o lixo.
- Eu queria um café.
- Café não temos, só se quiser que lhe faça um na cafeteira.
- Deixe estar, dê-me um sumo compal de pêssego.
- Sumo compal não temos, estamos à espera que nos venham trazer.
- Não faz mal, traga-me uma coca-cola.
- Está bem, mas olhe que elas não estão frescas, só pusemos no frigorífico há bocadinho.
- E água fresca tem?
- Acho que não tenho nada fresco. Só cerveja, não quer uma cervejinha?
- Não. Não me apetece. Traga-me um sumo qualquer, desde que esteja mais ou menos fresco.
- Pois, isso não temos. Abrimos hoje de manhã.
- Ah!
De qualquer mesa do restaurante Baia Verde, no Tarrafal, vês o mar e a praia. Os barcos de pesca que chegam, as palmeiras ao fundo, algumas pessoas a tomar banho e outras a passear na areia. Em qualquer dia, à hora de almoço, enche-se a Baia Verde de gente a comer cachupa e peixe grelhado. Quando o calor aperta as moscas tornam-se chatas mas a praia é sempre assim. Bonita. Das mais bonitas de Santiago.
Às vezes, quando te aproximas da esplanada do centro da Cidade Velha, sentes o cheiro a moreia frita. Às vezes não. Mas o cheiro a mar está lá sempre, que ele está ali ao lado, tão pertinho que tens a sensação que se estenderes as pernas as ondas te vêem molhar os pés. Elas fazem um barulho diferente quando se matam contra os milhares de seixos que são a praia, onde a areia, se a houve, já não é do meu tempo. O mar, os seixos, o vento nas palmeiras, o arvoredo ali ao lado, o pelourinho, até o macaco preso a uma corda que tenta sem descanso fazer malabarismos, fazem mágica a tarde da Cidade Velha.
Entras e estás em Portugal, numa pastelaria qualquer dessas que abundam aí. As mesas, a publicidade, os produtos, os pastéis de nata, mil folhas, queques, tudo te faz lembrar Lisboa. É também a pastelaria onde se vende o melhor pão, dirigida por portugueses, que ao almoço servem pratos de bacalhau à Braz e caldo verde. É um sucesso. Tão grande que vai abrir o segundo. Confesso que não vou lá tanto como gostaria. Se calhar porque as saudades não são assim muitas.
O carpaccio de Santa Maria, no Sal, pode não ser o melhor do mundo. Mas é bom come-lo com os pés enterrados na areia, ainda que à sombra de umas telhas de zinco, a ouvir uma morna que já escutaste dezenas de vezes mas que ali até te parece especial. Pode ser do vinho. Pode ser das águas azuis claras ali ao lado. Pode ser da companhia. Pode ser do calor. Pode ser dos limões e do azeite, se calhar portugueses. Pode ser. Mas que é bom… ai lá isso…
O café do Hotel Trópico é dos melhores que já bebi. Morei lá ao lado muitos meses e ainda hoje, quando quero beber um bom café, é lá que vou. Os empregados já me conhecem, não preciso dizer-lhes que quero um café curto. Também lhes troco euros, que recebem de gorjeta dos turistas. Vou lá muito com a Isabel Silva Costa, da RTP. Dizia-me ela há poucos dias que é importante manter aquele ritual. Às vezes andam notícias por ali. E o café, claro.
O chão da esplanada é feito de pedacinhos de lava, escuros e afiados, mas não te magoa os pés. Nem as costas, quando depois de almoçares te deitas por ali, a apanhar sol, porque à sombra faz frio. Chã das Caldeiras, a cratera de um vulcão na ilha do Fogo, é dos poucos sítios de Cabo Verde onde deves sentir frio à sombra. Talvez por isso, pelo frio, que um simples prato de sopa se transforma numa refeição tão grande que ficas cheio para o resto do dia. Ainda que esfomeado depois de horas a subir ao cimo do vulcão, os últimos metros quase de gatas, porque as pernas se recusam a subir sem uma ajudinha. Talvez por isso também, por tanto esforço para chegar ao cimo, que nunca pensaste que te sentirias tão bem debaixo do vulcão.
Hora de almoço. 13:00. Calor sufocante. E o único café aberto é uma espécie de túnel, escuro, de costas voltadas para o mar, para a praia, de areia branca e de águas cristalinas, das mais bonitas que já vi. Não me lembro o nome do café da vila do Maio mas recordo a decoração, típica de um bar irlandês, desses que tens aí em Lisboa. Não sei se é mas sei que o dono fala inglês. Simpático, educado, serve umas tostas mistas deliciosas. Mas fico a pensar que faltam ali uns portugueses a investir. Esses sim sabem o verdadeiro valor de uma esplanada voltada para o mar.
É pena que o Kapa não abra à tarde. Fica ali à beirinha da praia, aqui ao lado de casa. Serve umas pizzas muito boas, ainda que muito gordurosas nos últimos tempos, e tem um ambiente tão agradável que apetecia ir lá todos os dias, ainda que mais não fosse para beber uma água. Aos fins-de-semana, à noite, está sempre apinhado. Ainda há tempos por ali andava a ministra das Finanças. Se não for lá nunca vejo o meu irmão, contava-me no outro dia. Não sou da família mas olha… também gosto.



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