Caro amigo

Viajar deve ser das melhores coisas do Mundo. Antes de termos ficado sedentários, há milhares de anos, fomos tanto tempo nómadas que viajar está nos nossos genes. Nos meus está. Por isso aproveito cada momento: a preparação, a viagem ela mesma e os estilhaços, quando regresso. Invariavelmente cada viagem minha começa no dia que dou graxa às botas.
É por isso que faço por ter esse trabalho, de lambuzar os dedos de sebo amarelo e mete-lo em todas as dobras do couro, pelo menos um mês antes. As botas são as minhas companheiras inseparáveis de viagem e não raro fico ali olhando, depois do trabalho feito, desejando que chegue o dia em que as calço para irmos por aí.
Mas devo dizer-te, caro amigo, que partilhando desse teu amor pelas botas não comungo da opinião de que têm de dormir comigo. Várias vezes já as deixei de lado, cá fora, ao frio, e sem remorsos.
Depende das situações e vou contar-te algumas. No Peru, quando fiz a trilha Inca, todas as noites deixava as botas do lado de fora da tenda. Estavam, por norma, demasiado sujas para poderem partilhar o mesmo espaço que o meu saco-cama, esse sim um privilegiado que viaja enroladinho às minhas costas.
Quando percorri a Patagónia dormi em abrigos para caminhantes na zona das Torres del Paine, no sul do Chile. Em todos eles há uma regra: as botas ficam lá fora. É de resto um espectáculo curioso a porta de um desses abrigos: uma espécie de hall de entrada cravado de pregos e cada um deles com uma bota pendurada. Pelo chão, arrumadas a fim de deixar passagem, ficam outros pares, muitos, à falta de um prego aconchegante. Confesso-te que da primeira vez que tive de entrar descalço no abrigo senti algum receio. E se me roubassem as botas? Na verdade, quem lá estava tinha as suas próprias botas cá fora e não iria calçar outras no momento da partida. Foi pensando que eu nunca iria calçar as botas de outros que fiquei confortado em cada abrigo. E entendi que só assim se podia manter aquela sala e aquelas camaratas limpas, longe das carradas de terra agarradas às botas de cada um. Um único senão: o trabalho que tens para calçar umas botas de cada vez que te apetece sair do abrigo.
Mais medo, se calhar infundado, tive quando deixei as botas à porta da tenda em Samburo ou em Masai Mara, no Quénia. Imaginava que algum animal, durante a noite, as podia roubar. Um macaco brincalhão, um roedor qualquer, prontinho para afiar o dente naquele couro ainda com cheiro a sebo amarelo.
Já em Marrocos, no deserto, por falta de espaço dentro da tenda, os meus receios eram outros. Transferidos para a manhã seguinte, uns segundos entre bater as botas com força no chão e depois meter uma mão pelo cano, não fosse qualquer escorpião sem cheiro as adoptar como casa.
Aqui em Cabo Verde a questão nem se põe. Como deves imaginar nunca as usei embora estejam por cá. Mas tenho de confessar-te duas coisas, uma boa e outra má: a boa é que dormem no meu quarto, desde que chegámos, a má é que se olhar com atenção ainda lhes vejo agarrado pó das montanhas do Vietnam. Sei que mereciam melhor mas estou à espera daquele momento mágico do sebo amarelo. É que, agora, Cabo Verde não é uma viagem, é a minha casa.

Um abraço cabo-verdiano

Fernando Peixeiro


0 Responses to “Cabo Verde não é uma viagem”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS